segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

CASA MAL ASSOMBRADA DE ESTHER COX


 

         Enquanto morou nesta casa de Amherst, na Nova Escócia, no final da década de 1870, Esther Cox sentiu-se vítima de um espírito malévolo que atirava facas pelo ar, ateava fogo, quebrava móveis e, finalmente forçou-a a abandoná-la e fugir. 

         Fodor teorizou que o choque psicológico de ingressar na puberdade provoca às vezes a liberação de memórias traumáticas. Especulou que a perseguição de John Bellpela buxa - e a punição que ela infligira a si mesma poderia ter origem em abusos sexuais cometidos pelo pai contra a filha  na infância. No entanto, prossegue Fodor, "nenhum psicólogo creditaria às personalidade divididas manifestações e poderes que estão fora do alcance do corpo. - como os demonstrados pela Bruxa de Bell. "Obviamente, estamos lidando com fatos para os quis não temos teoria adequada, na psicologia normal ou na anormal. 

            Em 1878 e 1879, quase meio século depois da última aparição da Bruxa de Bell, uma cabana alugada na cidade canadense de  de Amherst, na Nova Escócia, tornou-se o centro de uma manifestação de poltergeist tão terrível quanto a do Tennessee. Em Amherst a figura central foi Esher Cox, de 19 anos, que vivia com os irmãos Jennie e William na casa de sua irmã casada, Olive Teed, e com o marido dela, Daniel, capataz em uma fábrica de sapatos. Os dois filhos de Teed, Daniel e John, completavam essa família ampliada. 

             Tal como foi descrito no  livro O Grande Mistério de Amherst, escrito em 1888 pelo ator itinerante Walter Hubbell - que às vezes se hospedava na casa dos Teed e testemunhou o episódio -, os acontecimentos estranhos começaram certa noite, quando Esther e Jennie, que repartiam uma cama, se preparavam para ir dormir. De repente, Ester deu um pulo, gritando que havia um rato entre as cobertas. As meninas procuraram sem achar nada, mas afirmavam ter visto o colchão mover-se, como se houvesse alguma coisa se mexendo dentro dele. Na noite seguinte, Estere Jennie ouviram um barulho que parecia vir da caixa de retalhos que estava embaixo da cama. Puxaram a caixa para fora e ficaram espantadas ao vê-la pular a quase meio metro e cair de lado. Assim que elas endireitaram, a caixa saltou de novo. Os gritos das irmãs acordaram Daniel e Teed; não vendo nada fora do comum, ele mandou as duas de volta para a cama. 

         Foi na terceira noite que Daniel e outros moradores da casa finalmente encontraram causas para acreditar em Esther e Jennie. Nessa noite Ester havia ido para a cama mais cedo, queixando-se de febre. Jennie juntou-se a ela por volta das dez horas. Poucos minutos depois, Esther arrancou as cobertas e  pulou para o meio do quarto, gritando aterrorizada: "Meu Deus! O que é que está acontecendo comigo? Estou morrendo!" Acendendo a luz, Jennie viu que o rosto da irmã estava tomado por um rubor cor de fogo, seus olhos saltavam das órbitas e o cabelo estava praticamente em pé. 

           Os gritos de Jennie truxeram correndo os adultos da casa. Ficaram olhando espantados enquanto a cor do rosto de Esther passava do vermelho-vivo para o branco fantasmagórico. Quando Jennie  e Olive ajudaram Esther  a deitar-se de novo, ela começou a engasgar e ofegar, e conseguiu articular as palavras; "Estou inchando, e com certeza vou estourar!" Todos no quarto puderam ver que o corpo dela estava de fato inchando. Também estava quente ao tato, e alternava o ranger feroz dos dentes com o choro. De repente, um som  explosivo, como um trovão, encheu o quarto. Depois, três outros fortes estrondos, que pareciam vir de  debaixo da cama. reverberaram pelo quarto e a inchação de Esther desapareceu, tão rapidamente quanto havia surgido. Ela caiu então em uma modorra tão profunda que seus familiares temeram que estivesse morta. 

            Segundo Hubbel, quatro noites depois a força misteriosa e torturante atingiu Esther mais uma vez. A dolorosa inchação e os gritos repetiram-se, e vários moradores da casa afirmaram ter visto o travesseiro e as roupas de cama de Esther voarem pelos ares, atirados por mãos invisíveis. Tal como antes, uma série de explosões estrondosamente fortes marcou o fim do ataque e a volta ao normal do corpo de Esther.  

            Daniel decidiu que chegara a hora de consultar um médico acerca da cunhada. Um médico da cidade,  o doutor Carritte, visitou a moça na noite seguinte e falou de seu espanto ao ver o travesseiro de Esther deslizando para frente e para trás sob a cabeça dela, e ouvir estouros embaixo da cama. O doutor Carritre fez uma busca, mas não encontrou a fonte dos estouros.  Depois disso, afirmou, ele testemunhou as manifestações mais aterrorizantes que ocorreram desde o início da assombração: as roupas de cama de Esther  voaram da cama dela e um forte ruído de raspar foi ouvido, ao mesmo tempo que letras de quase trinta centímetros de altura apareceram na parede do quarto, como se riscadas no reboco por um objeto pontudo de metal. A mensagem escrita pelos espírito furioso dizia:  "ESTHER COX YOU ARE MINE TO KIL" ("Esther Cox, você é minha para matar.") Em seguida, um pedaço de reboco soltou-se da parede, voou através do quarto, pousando aos pés do médico e o quarto foi sacudido por estrondosas pancadas nas paredes.  Após duas horas dessa comoção, a calma voltou a reinar.

           No dia seguinte, o médico voltou e assistiu a outras atividades  bizarras. Disse que batatas voaram pelo ar, deixando por pouco de acertar nele e em Esther. Assim que ele administrou um sedativo à perturbada moça, ouviu as mesma pancadas que haviam sacudido o quarto na noite anterior. Em seguida o som pareceu transferir-se para fora da casa e transformar-se em vigorosos baques no telhado. Quando saiu para observar o telhado não viu nada, embora o barulho, audível a duzentos metros dali, parecesse o de uma marreta abatendo-se sobre as telhas. 

          Nos dias seguintes, a assombração foi ficando cada vez mais destrutiva. Incêndios irromperam em diversas partes da casa. Fósforos  acesos materializavam-se  no ar e caiam sobre as camas. Facas e garfos voavam pelos ares e cravavam-se nas paredes de madeira. Um volumoso peso de vidro para papeis atravessou voando a sala de estar,atingindo o sofá a poucos centímetros da cabeça de um visitante. Os móveis viravam-se de repente, ou atiravam-se contra as paredes. 

            Esther continuou a concentrar a maior parte da hostilidade do poltergeist. Outros da família relataram ter ouvido ruídos de bofetadas e visto claras marcas de dedos aparecerem no rosto de Esther - sinais, acharam, de espancamento por mãos fantasmáticas. Quantidades de alfinetes apareciam e enfiavam-se no corpo e no rosto dela. Em uma ocasião, uma força desconhecida arrancou um canivete das mãos de um garoto da vizinhança e cravou-o nas costas de Esther. 

           Para escapar à cruel presença, Esther começou a hospedar-se com vizinhos. Pelo jeito isso de nada serviu. Segundo todos os  relatos, o poltergeist  ia atrás dela e atacava-a onde quer que fosse, e ela acabou precisando voltar para casa. Em julho de 1879 - menos de um ano depois de começar - a assombração tornara-se tão destrutiva que o proprietário da casa alugada pelos Teed pediu para a família mudar-se. Para não forçar todos a sair, Esther foi embora de novo. 

          A jovem achou trabalho em uma fazenda, mas quando o celeiro da fazenda pegou fogo e queimou -se por inteiro, Esther foi considerada culpada de incêndio criminoso e sentenciada a quatro meses de prisão. Se havia mesmo um poder desconhecido assombrando a moça, parece ter ficado satisfeito com esse golpe. Esther foi solta após cumprir um mês de pena e, segundo todos os relatos, parece ter levado uma vida normal e sem acontecimentos incomuns depois disso, sem ser molestada pelas forças misteriosas que por tanto tempo haviam perturbado sua paz.

          Descrevendo o caso de Esther Cox a um colega, em 1883, o doutor Carritte escreveu: "Pessoas honestamente céticas convenceram-se logo, em toda as ocasiões, de que não havia fraude ou engano no caso. Eu levaria uma semana inteira para escrever-lhe a história completa de minha ligação com esses estranhos fatos. Se eu fosse publicar o caso nas revistas medicas, como sugere, duvido que os médicos em geral acreditassem em mim. Estou certo de que eu não acreditaria  nesses aparentes milagres, se não os tivesse testemunhado. 

            Os relatos e  aparições horripilantes   e de atividades de poltergeist não estão, de modo algum, confinados às épocas passadas. E os fenômenos testemunhados nesses casos passados têm uma notável semelhança com os que ocorrem mais recentemente, a despeito do fato de estarem separados por gerações, e até mesmo séculos. 

            Cem anos completos depois da assombração de Esther Cox, por exemplo, uma família de Nova Inglaterra recebeu a primeira de uma série  de visitas apavorantes que aterrorizariam sua residência por mais de dois anos. O operário Joe Berini (pseudônimo dado pelos parapsicólogos que investigaram o caso) e sua esposa, Rose, viviam com John e Daisy, os dois filhos de um casamento anterior de Rose, na mesma casa em que o pai de Joe crescera -  na qual também haviam morrido diversos membros de sua família. Rose, que foi a mais perturbada, física e emocionalmente, pela força malévola que atacou a casa dos Berini, foi também a primeira pessoa a testemunhar algo incomum em seu lar. 

              Em uma noite de maio de 1979, contou Rose, ela ouviu a voz de uma menina gritando, "Mamãe, mamãe, é a Serena." (investigação posteriores revelaram que o pais de Joe tivera uma irmã chamada Serena que morrera na casa, mais de meio século antes, aos 5 anos de idade.) A misteriosa voz noturna parecia ter sido um velado presságio de um desastre iminente.Daisy, a filha de Rose que na época estava com 9 anos, tinha uma operação de extração das marcada para o dia seguinte. A menina sofreu uma parada cardíaca sob o efeito da anestesia e quase morreu na mesa de operações. 

           Esta foi a primeira de várias ocasiões nas quais a voz auto identificada como Serena supostamente falou aos Berini em momentos de crises de saúde na família. A voz foi ouvida no mês seguinte, uma noite antes de a avó de Joe sofrer um derrame e de novo em novembro, uma noite antes da morte da senhora. Em outra ocasião, Joe foi acordado no meio da noite pela voz da menina e viu que Rose estava se sufocando durante o sono. Rose contou depois que sonhara estar  sendo estrangulada por seu ex-marido. No total, Rose e Joe afirmaram ter ouvido a voz de Serena à noite meia dúzia de vezes. 

          Segundo os relatórios dos pesquisadores, de novembro de 1979 a março de 1981, a vida na casa dos Berini voltou ao normal. Então, os estranhos acontecimentos recomeçaram a rapidamente entrarem em uma escalada de horror e intensidade. 

          O segundo turno da assombração começou quando Rose viu a figura de um menino, todo vestido de branco, andando pelo vestíbulo do andar superior bem no meio da noite. Essa aparição voltou para uma segunda visita cerca de dez dias depois e desta vez Rose ouviu o menino perguntando, com uma voz que ela descreveu como "suave": "Para onde vão as pessoas solitárias? Onde é meu lugar?"

         Poucos noites depois, Joe também viu a aparição e ouviu  a declarar que uma mentira fora dita, mas que a verdade seria revelada. Contou ter visto a pequena figura vestida de branco visitar os três dormitórios de casa e depois ajoelhar-se no vestíbulo, como se estivesse tentando levantar o tapete. Joe levantou o tapete e as tábuas do assoalho naquele ponto e encontrou uma medalha religiosa, Obviamente antiga, com a corrente partida. Joe ficou imaginando se o menino de branco não seria o fantasma de seu tio Giorgio, que morrera perto da casa aos 8 anos, poucos anos depois da morte da pequena Serena. Ao pesquisar entre famílias e amigos descobriu que Giorgio fora enterrado com sua roupa branca da Primeira Comunhão. 

          A aparição de Giorgio começou a mostrar-se aos Berini com mais frequência, duas ou três vezes por semana. De vez em quando, afirmavam, dava respostas breves a algumas perguntas. Outras vezes, fazia acusações sobre o irmão gêmeo de Giorgio, Carlos, que sobreviveria até a idade adulta e estava morando perto dali com a esposa e os filhos. Joe pediu a seu tio Carlos que explicasse as observações da aparição  sobre alguma coisa - ninguém sabia o que - tirada da casa, mas Carlos disse que não sabia do que o menino de branco poderia estar falando. Certa noite , a aparição anunciou, "Meu irmão mais velho é o único que pode me ajudar." Joe imaginou que o fantasma de Giorgio tomando Joe por seu pai, que era o irmão mais velho de Giorgio. Naquela noite, quando a aparição foi embora, o telefone ao lado da cama de Rose e Joe saltou de sua mesinha e voou pelo quarto. Depois que essa aparente atividade de poltergeist se repetiu mais de uma dúzia de vezes, Joe tentou ligar para a casa de seus pais para avisá-los que esperassem uma visita da aparição de Giorgio, mas cada vez que ele mencionava o nome do ti a linha caía. 

           Por conselho de um sacerdote da religião, os Berini decidiram ignorar a aparição, caso viesse de novo. Quando Rose não deu atenção à figura de branco em sua próxima visita, a porta do armário de seu quarto começou a abrir-se e fechar-se sem qualquer causa física. Joe e Rose contaram que, poucos dias depois, ouviram passos correndo nas escadas em um momento em que seus filhos não estavam em casa. Mais tarde, nesse mesmo dia, afirmou Rose, uma força invisível puxou uma caixa de macarrão das mãos dela e espalhou o conteúdo pelo chão. 

          Como ignorar a aparição não havia funcionado, os Berini buscaram de novo a ajuda da Igreja. Na noite seguinte, dois  padres foram até a casa deles celebrar uma missa. Ungiram a casa com óleos santos e benzeram todos os cômodos com água benta.   aparição, segundo consta, voltou na noite seguinte, mas foi embora quando Joe ordenou que partisse em nome de Cristo, tal como fora sugerido por um dos sacerdotes. Em algumas horas a figura reapareceu, mas depois disso suas visitas foram ficando menos frequentes. 

           Infelizmente para os Berini, o desaparecimento gradual do fantasma de Giorgio foi acompanhado pela visita de outra figura, mais ameaçadora. Essa nova aparição, descrita como um homem corcunda vestido com uma capa negra, fez sua primeira aparição em junho d 1981, e retornou regularmente durante todo o verão.Notável por seus pés grandes e sua voz roufenha, essa temível aparição não quis identificar-se, limitando-se a afirmar sarcasticamente que era "um ministro de Deus". Com frequência aparecia quando Rose estava rezando o terço e parecia dedicado a distraí-la de suas orações com obscenidades.           

           Segundo consta, as atividades de poltergeist na casa aumentaram em violência quando a figura vestida de negro  se tornou um visitante regular. Rose, Joe e seu filho de 15 anos,John, afirmaram ter sido atingidos por objetos voadores, com Rose sendo o alvo da maior parte dos ataques. O telefone no quarto do casal continuou voando pelo cômodo, e um abajur   de cabeceira caiu várias vezes, atingindo Rose na cabeça. Frascos de perfume caiam da cômoda para o chão do quarto, e a mobília foi virada ou deslocada por mãos invisíveis. Os objetos religiosos mereciam atenção especialmente maligna do poltergeist: santinhos eram quebrados e crucifixos removidos das paredes. Pratos planavam pelo ar   e atingiam membros da família. A porta do refrigerador escancarou-se e acertou Rose na cabeça, e a escada dobrável do sótão abria-se e fechava-se com estardalhaço, chegando a rachar o teto do corredor com seu impacto, a atingir Rose com violência.        

           A família contou que Rose    era vítima de ataques invisíveis, que agiam   também sem ajuda de objetos da casa. Certa noite, durante o jantar, o braço dela foi subitamente torcido para trás e sua cabeça foi puxada para um lado com tal violência que ela se sentiu sufocar e ficou azul.Recobrou-se apenas quando seu marido correu com ela para respirar um pouco de ar fresco,fora de casa. Em várias outras ocasiões diferentes, segundo Joe, ele viu sua esposa sendo tirada da cama quando dormia, suspensa no ar e depois deixada cair no chão. Rose encontrou marcas nas pernas e nos braços, como se tivesse sido agarrada com violência.  Três  vezes ela afirmou ter sido arranhada por um atacante invisível, fazendo com que sentisse seu corpo queimado.  Estrias ensanguentadas marcaram o busto dela e uma cruz de cabeça para baixo foi riscada em suas costas.     

             A figura corcunda supostamente lançou seu ataque mais violento no início de agosto, dois meses depois de aparecer pela primeira vez. Logo depois que Joe saiu para ir trabalhar no turno da noite da fábrica, tal como se lembrou Rose do incidente mais tarde, "as paredes começaram a bater (...) e a cama levantou-se  no ar. Tentei gritar e a porta do quarto bateu, de modo que não pude sair. O cachorro estava rosnando e a porta abriu-se".    Quando ela saiu gritando para o corredor, as portas dos quartos das crianças bateram. Ela foi arrastada  irresistivelmente de volta para seu próprio quarto. Neste, mãos invisíveis sufocaram-na e arranharam-na, mas ela agarrou o telefone e ligou para Joe.   Este voltou correndo para casa e encontrou a cama dando saltos de mais de meio metro no ar e Rose agachada em um canto, apertando contra si um crucifixo e uma garrafa de água benta.  

           Rose e Joe decidiram permanecer na casa  mesmo depois dessa noite de terror, mas algumas semanas depois, quando acordaram certa manhã e encontraram uma pesada faca de trinchar cravada na mesa da cozinha, decidiram que chegar a hora de um exorcismo em grande escala.  A família saiu por um mês, guardando seus pertences na garagem.   Um sacerdote realizou o complexo ritual na casa  vazia em setembro, e os Berini voltaram para lá e retomaram a vida. A voz de  Serena, a figura de Giorgio e o ministro "ministro de Deus" de capa negra não voltaram para assombrá-los.    

            Cerca de um mês depois que os distúrbios cessaram, Willian G. Rol e Steven Trigale,  da Fundação de Pesquisas de Durham, na Carolina do Norte, pesquisaram   o caso.  Vários vizinhos e amigos dos Berini, inclusive o sacerdote da paróquia, afirmaram ter testemunhado  incidentes de poltergeist na casa da  família, e atestaram sua autenticidade. Como Rose parecia ser o foco de grande parte da atividade , foi submetida a um teste para determinar sua inclinação à fantasia; suas notas foram baixas. Joe Berini também submeteu-se ao teste e obteve resultados ligeiramente superiores aos da esposa, o que sugeria, segundo os pesquisadores, que talvez suas experiências fossem desencadeadas pelas de Rose.    Tal como em muitos casos de poltergeist e de assombração, contudo, os investigadores acharam que o caso era muito complexo. Rose Berini deu mostra  de vários distúrbios físicos e psicológicos que, julgam os pesquisadores, podiam proporcionar um elo para as diversas personalidades manifestadas nas aparições. O tema religioso, por exemplo, que esteve presente durante toda a assombração, "podia estar relacionado com os sentimentos de conflito engendrados  conversão da senhora Berini ao catolicismo (do judaísmo)",   afirmaram Roll e Tringalle. 

            Concluíram, porém, que "essas interpretações são obviamente especulativas e dependem de pesquisas futuras para que possamos levá-las a sério. Embora pareça que a senhora Berini  teve um papel importante em fornecer  ou dirigir a energia que animou o conteúdo  de sua casa, os incidentes  não podem ser  entendidos apenas em termos de sua personalidade".   E desse modo um episódio  de assombração encerrou-se tão misteriosamente quanto começara, não permitindo que os pesquisadores da compreensão dessas presentes fantasmagóricas que há séculos vêm atormentando tantos lares.                             


quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

ACONTECIMENTOS APAVORANTES

 


       Em uma noite da primavera de 1978, uma jovem inglesa de 17 anos juntou-se ao namorado e um grupo de amigos em uma macabra brincadeira de adolescentes: atravessaram um cemitério local passando por cima dos túmulos. Apesar de não estar muito segura de que fosse uma boa ideia., ela acompanhou o grupo,sem sequer imaginar que isso atrairia assombrações que acabariam por expulsá-la da casa, juntamente com sua família.

           Os episódios começaram discretamente, não muito tempo depois da note no cemitério. Ao acordar no meio da noite, a moça, identificada apenas como"senhorita" A" no relatório de um pesquisador da Sociedade de Pesquisas Psiquiátricas, viu algo que lhe pareceu uma senhora de idade sentada em uma cadeira, ao  pé da cama. A aparição não disse nada, nem fez qualquer gesto ameaçador. A senhorita A, que estava apenas  semi-desperta ao ter essa visão noturna, sentiu que a velha não lhe desejava mal. Caiu no sono de novo e depois decidiu que a mulher era figura de sonho.       

         Mas esse primeiro encontro inócuo com a visão fantasmagórica logo deu lugar a incidentes mais assustadores. Nas semanas seguintes, de acordo com o relato da senhorita A, a velha apareceu diversas vezes à luz do dia, seguindo a moça de um cômodo para outro. Pairando a cerca de 30 centímetros do solo, a  aparição olhava para a moça em silêncio e ficava parada sempre que ela se virava para a estranha visão. A senhorita A não conseguia ver através da figura, mas tampouco podia tocá-la - a sua mão atravessava a visão.

         A senhorita A, a mais velha de quatro filhos, nada disse aos pais ou as irmãos mais novos sobre essas experiência. Mas começou a sentir uma hostilidade cada vez maior por parte da aparição, e foi ficando ansiosa. Um dia, quando ela estava fazendo chá, sentiu de repente uma força que agarrava a chaleira e a virava, como se quisesse escaldá-la. Escapando de machucar-se naquela ocasião, a jovem logo  passou a acreditar que a velha estava exercendo sobre ela uma influência perversa. Outro dia, estava passando roupa e sentiu um impulso súbito de levantar o ferro quente e queimar com ele o irmão bebê, que dormia no berço. Felizmente, ela resistiu ao terrível impulso. 

          A ansiedade de nunca saber o que poderia acontecer em seguida ficou forte demais para aguentar sozinha, e ela confiou tudo à mãe. No início, a mãe não deu muita importância às experiências da filha; mais tarde, porém, afirmou ter visto também a aparição. Olhando para baixo pelo vão da escada, certo dia, ela avistou a velha senhora flutuar através do vestíbulo de baixo e desaparecer em um cômodo adjacente. Logo, a mãe também começou a sentir  uma presença malévola. Certa manhã, contou, ela estava limpando a casa quando o fantasma tirou o aspirador de pó das mãos dela e arrancou o tubo do aparelho. Em outras ocasião, sentiu a aparição como uma força invisível que empurrava ou puxava as portas que ela tentava abrir ou fechar, no sentido contrário aos movimentos dela.

        A frequência dos incidentes foi aumentando e logo toda a família estava enfrentando fenômenos estranhos e às vezes ameaçadores. Até mesmo o pai da moça, que antes tratava como disparates os relatos da esposa e da filha, convenceu-se de uma presença sobrenatural. Certa noite, depois que fortes ruídos de batidas acordaram toda a família, o senhor A passou duas horas procurando a fonte da perturbação, sem encontrar nada. Em outra ocasião, começou a gotejar água sem cessar do teto da cozinha: chamaram o encanador, que não conseguiu encontrar vazamentos. 

         O bebê era pequeno demais para descrever qualquer coisa que pudesse ter visto ou ouvido, mas os dois outros irmãos da senhorita A testemunharam acontecimentos  estranhos que atribuíram à assombração. Uma noite, quando estava deitado sozinho no quarto escuro, um dos meninos ouviu alguém roncando alto na cama do irmão. Quando foi investigar, a cama estava vazia e arrumada. Em outra noite, os dois meninos estavam assistindo televisão com os pais, a senhorita A e o namorado dela quando toda a família ouviu um barulho alto vindo do quarto d moça.Correram para cima e viram todos os enfeites que estavam sobre a lareira do quarto arrancados e jogados sobre a cama. Após esse incidente, o namorado da jovem saiu da casa e negou-se a entrar nela de novo. 

       Finalmente apareceu uma pista sobre a identidade da aparição. Um dia, quando a senhorita A estava sentada com o pai na sala, entrou um uma espécie de transe e começou a falar de uma vida anterior, como filha de um médico francês que vivera em Londres em meados do século XIX. Aparentemente, a senhora idos que estava assombrando a casa fora membro da família do francês. Mas a moça não explicou or que esse fantasma havia voltado para assombrá-la. Ela continuou a ser incomodada pelo espírito, e logo começou a ter outros comportamentos anormais, como entortar os dentes de um garfo com um simples toque dos dedos.  

         O senhor A ficou compreensivelmente perturbado com as experiências da filha, e temeroso por sua saúde.  Consultou um médico, que aventurou um diagnóstico preliminar de epilepsia, depois rejeitado por uma série de eletroencefalogramas. Finalmente, o departamento de assistência social da cidade conseguiu que D. F. Lawden, pesquisador do SPR e chefe do departamento de matemática da Universidade de Aston, em Birminghan, se interessasse pelo caso. Ele entrevistou a família e inspecionou a casa, mas declarou que não conseguira encontrar "qualquer explicação normal para os eventos que me foram relatados". Lawden sugeriu à família que a intensa ansiedade mental, muito provavelmente causada pelo incidente do cemitério seis  meses antes, era a causa das experiências da jovem. Aconselhou uma mudança para outra casa, o que poderia aliviar o problema, ao cortar a conexão entre a vida cotidiana da garota e a localização conhecida da assombração. 

         A família estava relutante em deixar a casa em que vivera por onze anos, e além do mais as despesas de mudança eram pesadas. Mas seis meses vivendo em constante temor tinham seu  preço. Finalmente, quando encaixotaram seus pertences para sair da casa, a aparição da velha senhora começou a desaparecer de suas vidas. 

          Movida pela curiosidade, a moça voltou uma vez para a casa assombrada. Achando a porta de trás quebrada, ela entrou, abriu a porta da frente para iluminar melhor  e depois tentou usar o telefone. De repente, segundo contou depois, teve uma horrível sensação de engasgamento e de frieza em volta da garganta, como se estivesse sendo estrangulada por uma mão gelada e invisível. Depois disso, foi atirada pela porta afora. Depois dessa experiência nunca mais ousou voltar àquele lugar. 

           As provações da família inglesa parecem ter incorporado características tanto de poltergeist quanto de assombração. O foco dos bizarros incidentes era uma adolescente, como costuma ser  o caso na maioria de poltergeist, e a ação estava concentrada em um lugar, o que em geral acontece c as assombrações. No entanto, neste ponto terminam as semelhanças entre este caso e o que é considerado típico das assombrações e das manifestações de poltergeist. Na maior parte dos casos, embora seja assustadora, a assombração é uma presença benigna, que não deseja mal às pessoas que encontra. Do mesmo modo, um poltergeist pode causar uma grande perturbação, mas em geral faz isso de maneira brincalhona ou provocadora, sem sinais de maldade ou hostilidade. 

         No entanto, há exceções a essas regras gerais. Uma pequena porcentagem dos relatos de poltergeist ou de assombração fala de presenças malévolas e até mesmo selvagens, que expulsam as pessoas de casa, como no caso da desafortunada família da senhorita A. Alguns relatos chegam a acusar poltergeists e assombrações de causarem ferimentos ou mortes. 

         Desde a fundação da SPR em 1882  e de sua equivalente americana, ASPR, em 1885, dezenas de suspeitas de ocorrências de assombrações ou de poltergeists desse tipo foram investigados de cabo a rabo. Às vezes, os pesquisadores desconfiam que a fraude, e não um mal sobrenatural, estava na raiz de alguma assombração particularmente pavorosa. Um desses logros, que teve lugar em Amityville, no estado de Nova York, em 1975, teve ampla repercussão e foi tema de vários livros e filmes. Muitas vezes, porém como em um notável caso relatado por uma viúva inglesa em 1943, esses encontros aterrorizantes com poderes estranhos e destrutivos ficam sem explicação mesmo depois das cuidadoras e céticas  investigações. 

         "Há algum mal aqui que se manifesta em doenças; nossos visitantes, novas criadas, todos parecem ficar doentes e meu marido morreu em junho último, (...) Outras manifestações (...) ruídos de batidas, barulhos alarmantes (...) cheiros desagradáveis e inexplicáveis. Minha irmã por duas vezes acordou abruptamente com uma sensação de mãos em volta do pescoço tentando estrangulá-la, sentindo uma presença má." Isto dizia a carta enviada à SPR pela aflita viúva, identificada apenas como senhora Knight. Ela estava descrevendo a vida em sua casa na aldeia de Wareham, a cerca de 95 quilômetros a sudoeste de Londres. O senhor e a senhora Knight, juntamente com uma irmã desta, tinham mudado para a aldeia três anos antes. A morte do senhor Knight foi apenas um dos estranhos e muitas vezes tráicos acontecimentos que a senhora Knight atribuiu a um mal invisível na casa deles.  

          Tanto medo  e pesar fora provocado por uma casa que foi descrita por G.N.M. Tyrrel, respeitado pesquisador da SPR e autor do livro Aparições, publicado em 1953, como "particularmente leve e alegre (...) a última casa que se desconfiaria estar assombrada". Construída por volta de 1820, tratava-se de um sobrado de tijolos com dois andares e telhado, localizada em uma agradável estrada campestre. Uma forte grade de ferro apoiada em pilares de tijolo separava o jardim da calçada. Mas, segundo a senhora Knight, essa aparência encantadora era enganadora. 

            Entre os incidentes relatados a Tyrrel houve duas ocasiões em que a senhorita Irwin, irmã da senhora Knight, afirmou ter sido acordada pela sensação de estar sendo estrangulada por mãos invisíveis. Também contou ter sentido uma presença má no quarto. Na segunda vez em que isso aconteceu, a sensação de estrangulamento e da presença malévola foi acompanhada pela percepção de algo invisível puxando as roupas de cama. A  jovem tinha certeza de que os incidentes não eram sonhos. É muito comum que as pessoas afetadas imaginem tratar-se de um simples sonho. 

          Em outras ocasiões, odores nauseabundos invadiram varias partes da casa. Inclusive a despensa, o vestíbulo e o banheiro. Neste último, com efeito, a senhora Knight sentiu certa manhã um cheiro de carne podre. O fedor ficou no ar por mais de cinco minutos, contou ela, enchendo sua mente com pensamentos de "morte e túmulo". Ela contou também que uma lâmpada do banheiro acendeu sem que houvesse alguém perto do interruptor e que um raio portátil fez de repente um barulho de  estouro, "como um tiro de pistola", e emitiu uma quantidade de fumaça, enquanto continuava funcionando normalmente. Não foi preciso consertá-lo. 

          Em 1943, as assombrações  desenvolveram uma atividade particularmente intensa e variada na casa. Em janeiro desse ano, ruídos inexplicáveis foram ouvidos em diferentes c^modos, por três dias consecutivos. Os primeiros barulhos começaram certa tarde, quando a senhora Knight estava de cama, por causa de um resfriado. Ela ouviu cinco batidas fortes, como se alguém estivesse golpeando a porta ou a cabeceira da cama. As pancadas soaram com intensidade bastante para que seu marido as ouvisse do andar de baixo, mas a irmã dela, que estava na cozinha nesse momento, nada ouviu. Na noite seguinte, ela e a irmã ouviram um forte baque em um dos quartos do andar superior, como se alguém houvesse  caído da cama, ou como se alguns livros houvessem despencado de uma mesa para o chão. Procuraram, mas não encontraram uma causa física para o barulho. No dia seguinte, na cozinha, ela ouviu algo que lhe pareceu o ruído de uma pesada cesta de roupa suja sendo largada do lado de fora da porta traseira. Abriu a porta e nada encontrou. 

          Três meses depois, a senhora Knight despertou no meio da noite e ouviu um barulho forte bem embaixo de sua cama. Parecia, disse ela, um "animal roendo um osso grande em cima das tábuas descobertas". Acendeu as luzes e olhou embaixo da cama. Embora nada visse, o fenômeno continuou. Foi buscar a irmã e as duas ficaram escutando, enquanto o barulho mudava de lugar, até parar. Em duas ocasiões o casal ouviu ruídos misteriosos na sala de visitas, como se alguém estivesse chicoteando, de fora, a janela da frente da casa. 

          A casa não estava apenas barulhenta; parecia estar insalubre. A senhora relatou que treze visitantes e serviçais ficaram doentes de forma estranha, durante os três anos em que ela viveu lá. E quando o marido dela morreu uma semana após a operação em julho de 1943, ela atribuiu a morte dele à ação da presença malévola.  Um mês depois sua irmão, a senhora Fox, foi visitá-la e caiu doente na manhã seguinte à chegada, acometida de dores. Os médicos registraram uma inchação abdominal e uma inflamação na boca e na garganta, mas a causa da doença nunca foi definida. 

          Também ocorreram acidentes misteriosos. No mesmo dia em que Tyrrell, da SPR chegou para investigar a assombração, a senhorita Irwin caiu no vestíbulo e quebrou o pulso. Disse que havia escorregado ao dirigir-se para a porta, mas Tyrrel observou que menos de meio metro do assoalho estavam sem carpete e as tábuas não pareciam nem um pouco escorregadias.  

          A senhora Knight e a irmã continuaram a relatar presenças estranhas e acontecimentos inexplicáveis.  Em uma ocasião, a dona da casa observou um pequeno oval de luz - aparentemente sem conexão com qualquer fonte de luz - movendo-se pela parede. Certa noite, por volta de meia-noite , ela e a irmã viram um leque de luz branca perto da porta de um dos quartos,  depois um pilar dourado ao lado da porta de um armário. A metade inferior do pilar estava dividida por uma linha de cor cinza-azulada vertical, como se a luz estivesse se transformando  em uma figura de duas pernas. Enquanto as mulheres estavam olhando para aquela brilhante aparição, ela subitamente sumiu. 

          Um mês depois, as irmãs saíram de  durante o dia e quando voltaram, pouco tempo depois, viram que alguma força desconhecida deslocara um dos pilares de tijolo que sustentavam a grade de ferro diante do jardim. Vários tijolos estavam desalinhados no lado do pilar que ficava de frente para a casa, e havia pedaços de cimento espalhados pelo gramado. Um amigo que consertou o pilar sugeriu que um carro ou caminhão devia ter colidido com ele, para causar  tal dano. Contudo, uma cuidadosa inspeção de Tyrrel revelou que nenhum dos tijolos do lado da da rua fora tocado e que a tinta, tanto na grade como no pilar, não tinha marcas de batida. 

         Ao mudar-se para aquela casa, a senhora Knight desconhecia sua história anterior. com o tempo, porém, ao comentar com os vizinhos os estranhos acontecimentos, ficou sabendo que diversos residentes haviam tido problemas semelhantes. Uma mulher  que morara ali antes havia saído após a morte súbita do marido e  de um acidente de bicicleta no qual ela própria ficara ferida. Os boatos locais falavam de uma criança que havia morrido na casa sem sintomas de qualquer doença conhecida e de alguém que fugira para uma cidade vizinha e morrera afogado. 

         O pesquisador Tyrrell julgou que a senhora Knight era uma "testemunha boa e precisa", pois nada sabia acerca de pesquisas de paranormalidade, nem da história da casa. Presumia-se, portanto, que não tinha qualquer predisposição nem razão para esperar que acontecessem coisas ameaçadoras. Tyrrell concluiu que algumas das doenças, acidentes e mortes podiam ser atribuídos ao acaso. Mas os ruídos, odores e visões que a senhora Knight e sua irmã captaram eram"de caráter supra-normal, não físico ou alucinatório", e formavam o que Tyrrell considerou como uma boa prova de percepção coletiva, , fenômeno no qual duas ou mais pessoas compartilham da mesma percepção, real ou alucinatória. As duas mulheres, por sua vez, preferiram sair de casa e começar vida nova longe dos misteriosos horrores. 

           Sentimentos difusos de mal e o temor a presenças invisíveis podem parecer ainda mais  quando as vítimas são crianças, e não adultos. Uma dessas experiências lançou uma sombra de medo e melancolia sobra a vida de uma jovem galesa chamada Rachel Briggs, pseudônimo inventado por Andrew MacKenzie, o respeitado escritor dedicado ao ocultismo, para quem ela descreveu a sua infância assombrada. Rachel e sua família tinham mudado, no final dos anos quarenta, de sua casa em Gales para um apartamento na cidade inglesa de Cheltenham. Em algum momento por volta de 1950, quando a menina tinha 5 ou 6 anos, teve seu primeiro encontro com a presença malévola que viria a roubar a felicidade de sua juventude. Certa manhã ela estava brincando com seu cão no quarto quando "a atmosfera de repente ficou 'elétrica' e eu me afastei aterrorizada da janela, para olhar para  interior do quarto. Embora não tivesse nada, era como se algo estivesse olhando intensamente  para mim, e com desagrado. O cão saiu correndo do quarto e eu fui atrás. Corri até a cozinha, onde minha mãe estava cozinhando. Ela perguntou-me o que havia de errado, mas eu não tinha ideia do que acontecera, e com certeza não sabia explicar". 

             Essa apavorante sensação de estar sendo olhada por alguma entidade invisível e ameaçadora aconteceu de novo e de novo, Rachel começou a ter medo de ficar no apartamento. Fazia hora para voltar da escola e passava o máximo de tempo possível brincando no pátio do prédio, onde se sentia segura. Sempre que seus pais a deixavam sozinha em casa ela corria para fora, para escapar à presença que, ela tinha certeza, queria "pegá-la". A hora de ir apara cama  tornou-se uma tortura. "Nunca me esqueci da força e da intensidade  daquela presença", escreveu ela mais tarde sobre uma noite em que seus pais a deixaram sozinha para visitar uns amigos. "Era como se alguém estivesse tentando penetrar na gente, com um olhar de ódio."

            Outros membros da família também sentiam uma presença sinistra no apartamento. Uma tia em visita à família sentiu temores noturnos tão intensos que comentou com a mãe de  Rachel a presença de "algo errado" com a casa; encerrou sua visita na manhã seguinte, recusando-se para sempre a voltar a pôr os pés no apartamento de Cheltenham. Quando a avó materna de Rachel, uma autoproclamada médium com supostos conhecimentos amplos do mundo dos espíritos, chegou de visita, sentiu também a presença que estivera aterrorizando a neta. A própria senhora Briggs sentiu sete vezes o espírito velado e ameaçador. E certa noite o senhor Briggs percebeu o que descreveu como uma presença alarmante à espreita atrás dele, quando estava sentado lendo perto da lareira. Rachel somente veio a comentar suas experiências infantis com os pais trinta anos depois, quando ficou sabendo que eles haviam tido a mesma sensação de um fantasma apavorante rondando o apartamento. A senhora Briggs, que sentira a própria infância prejudicada pelo interesse de sua mãe pelo ocultismo, relutava em discutir o assunto. Mas revelou que, na juventude, havia manifestado sinais de capacidade mediúnica e tomara a decisão deliberada de não se envolver com o mundo dos espíritos. 

            Quando a família saiu de Cheltenham para ir morar em Malta, no final dos anos cinquenta, a mãe de Rachel contou ter visto a figura fantasmagórica de um maltês que parecia estar procurando desesperadamente por alguma coisa. A senhora Briggs não demorou a descobrir que o prédio do apartamento onde moravam fora erguido sobre o local onde várias casas haviam sido destruídas por um bombardeio durante a guerra.  

             Esse tipo de conexão com um incidente anterior de morte e destruição não foi encontrado em Cheltenham. Quando o pesquisador Michel Matyn, da SPR, entrevistou uma inquilina subsequente de Cheltenham, descobriu que ela não havia sentido coisa alguma fora do comum. Andrew MacKenzie, que se correspondeu com Rachel, já adulta, até 1983, especulou que a suposta sensibilidade psíquica da senhora Briggs pode ter desencadeado as aterradoras experiências de Cheltenham.  

           O fato de Rachel Briggs nunca ter visto o espírito que a atormentava não fez com que seus encontros fossem menos apavorantes  do que aqueles nos quais o espírito se materializa ou dá outros indícios de sua presença. Os relatos dessas temíveis experiências de atividades de espíritos aparecem através dos séculos. Um exemplo de peso, testemunhado por diveros observadores reconhecidamente objetivos, ocorreu na Escócia em 1695, em Ringcroft, residência rural de um respeitado maçom. Andrew Mackie. Descrito pelos amigos como "honesto, civil e inofensivo, muito mais do que  maioria dos vizinhos", Mackie vivia com a esposa e os filhos em uma pequena casa de campo que por anos fora considerada assombrada. Os Mackie, nada viram fora  do comum nela até fevereiro de 1695, quando, segundo a história, caíram nas garras de um fantasma impetuoso. 

         O que quer que fosse, atingiu-os com estonteante intensidade. Segundo consta, pedras e outros objetivos voavam pelos ares como se fossem atirados por mãos espirituais, mas às vezes acertando e ferindo os observadores. O ministro da paróquia, Alexandre Telfair, foi chamado para testemunhar os distúrbios. Atestou depois que o espírito "molestou-me fortemente, atirou pedra e diversas outras coisas contra mim e golpeou-me várias vezes nos ombros e nas costas com um grande bastão de madeira, que todos os presentes ouviram o barulho dos Golpes". O fantasma não poupou ninguém, desatando sua violência de dia e de noite. Segundo Telfair, ele espancou as crianças dos Mackie certa noite  em suas camas, e em outras vezes "ele arrastava as Pessoas por suas Casas pelas Roupas".  Chegou até a assertar o moleiro local um golpe de incapacitante, atirou um cocho e um arado contra o ferreiro. 

 

 

 

        Então, tão subitamente quanto chegara, o espírito ficou quieto. Mas poucos dias depois, como uma tempestade que estivesse juntando forças, a fúria desatou-se de novo. Certa ocasião, conta-se que toda a casa pôs-se a sacudir como em um terremoto. Outros fenômenos também eram violentos: edículas irrompiam em chamas e queimavam completamente; durante as devoções da família, grumos de piche em chamas eram atirados contra os devotos, e às vezes uma forma humana feita de panos aparecia, assombrando e gemendo, ou exclamando, "psiu, psiu". 

        Convencido de que o fantasma era uma presença demoníaca, Mackie conseguiu que cinco ministros exorcizassem a casa no dia 9 de abril. Os procedimentos, contudo, foram interrompidos por uma chuva de pedras. Alguns dos participantes, entre eles Telfair, afirmaram ter levitado, puxados por ago que os agarrou pelas pernas ou pelos pés; s cinco clérigos confirmaram essa história. No início o espírito não demonstrou ter ficado impressionado com os esforços ministeriais, mas na sexta-feira 26 de abril, uma voz sem corpo anunciou: "Sereis incomodados até terça." No dia marcado, uma tenebrosa nuvem negra formou-se em um canto do celeiro, diante dos olhos de vários vizinhos dos Mackie. A nuvem foi ficando cada vez maior até que, segundo foi dito, preenchia quase toda a estrutura. A massa informe atirou lama no rosto dos observadores e, segundo Telfair, apertou alguns deles com tanta força que "por cinco dias eles pensaram sentir ainda aqueles apertões". Então, fiel a sua palavra, o espírito desapareceu. 

        Em 1696  Alexandre Telfair escreveu um relato da assombração, atestado por nada menos que quatorze testemunhas, inclusive cinco ministros e dois respeitados proprietários de terras da região. Na época não existiam recursos para uma investigação independente. Mas os modernos pesquisadores da paranormalidade descartam a possibilidade de que um número tão grande de testemunhas possa ter se enganado em suas observações,ou conspirado para perpetuar um logro tão elaborado. 

          Atribuir os desastres como os que caíram sobre os Mackie à obra de demônios não é incomum na história dos acontecimentos sobrenaturais, e os exorcismos ou o porte de medalhas religiosas são há muito armas favoritas na luta contra o mal. Esses dois formidáveis canhões foram apontados contra o ameaçador espírito que dizem perambular pelos domínios de uma propriedade medieval francesa em Calvados, em 1875 e 1876, conhecida na literatura paranormal como Castelo de Calvados. Em 1867, essa propriedade foi herdada por uma família e em outubro do mesmo anos o herdeiro, identificado como M.de X., observou diversos incidentes estranhos; mas a comoção rapidamente e tudo ficou em paz por oito anos. Então, em novembro de 1875, a violência macabra começou. 

         Por um período de três meses, M. de X. manteve um diário co detalhes das provocações de sua família. Registrou episódios  de ruídos fortes, como se alguém estivesse batendo contra as paredes e portas, arrastando pesadas cargas pelo assoalho e pelas escadas abaixo e malhando o castelo com um ariete. Livros foram arrancados das prateleiras e espalhados pelo chão, móveis foram deslocados, portas e janelas abriram-se sem que ninguém as tocasse. Testemunhas descreveram choros queixosos e gritos agudos de fonte desconhecida, além de passos de uma entidade invisível que percorria a casa e corria para cima e para baixo pelas escadas, como se suas pernas estivessem "privadas de pés e caminhando sobre cotos". Um padre em visita ao castelo disse ter visto um armário de cozinha elevar-se e pairar no ar. Nesses três meses, nem uma noite foi passada em paz. Membros aterrorizados da família começaram a trancar as portas de seus quartos e a deixar velas acesas durante toda a noite, mas isso serviu de nada. Relataram que as luzes apagavam-se misteriosamente e portas  trancadas eram escancaradas por uma presença invisível. As Bíblias da casa foram profanadas e, em uma ocasião, contou-se que uma chave saiu da fechadura e atingiu seu próprio dono. 

         A família tentou atrapalhar a presença assombradora  colocando cruzes e medalhas religiosas em todas as portas, mas, segundo o diário, esses objetos sagrados sumiram na note seguinte e  um forte ruído reverberou por toda a casa. O padre da paróquia realizou um exorcismo que pareceu tranquilizar as coisas por uns tempos. O diário registra que, poucos dias depois,quando a dona da casa estava escrevendo cartas, muitos dos objetos religiosos desaparecidos materializaram-se de repente e despencaram sobre a mesa, na frente dela. Com isso, a violência começou de novo. Perdendo finalmente as esperanças de viver em paz na casa, a família vendeu a propriedade.

            Os relatos sobre o caso do Castelo de Calvados foram publicados pela primeira vez no Annales des Siences Psychiques, em 1893. O editor da revista, em certo doutor Dariex, havia examinado o diário de M. de X., no qual o atormentado homem narrava suas tentativas de descobrir a presença ameaçadora - estendendo barbantes através das portas da casa para ver se permaneciam intactos durante os fenômenos e procurando pegadas na neve em torno do castelo, nos meses de inverno. E muitas testemunhas da assombração escreveram cartas atestando diversos incidentes e confirmando os relatos do diário de M. de X. Após avaliar os indícios, o doutor Dariex concluiu: "A honestidade e a inteligência do dono desse castelo não podem ser questionadas por ninguém."

             A maldade e a destrutividade demonstradas nas assombrações de Ringcroft e de Calvados não se restringiram a um lado do Atlântico. Um dos poltergeist mais selvagens e impiedosos da história trouxe a devastação a uma próspera plantação de algodão do Tennessee, atormentando os donos, John e Luce Bell, e seus nove filhos, durante quatro anos. A Assombração da família Bell, que começou em 1817, provocou grande interesse público, e multidões de curiosos acorreram à fazenda para conhecer os fenômenos sobrenaturais. Entre essas testemunhas estava um amigo da família Bell, o ilustre herói militar Andrew Jacksn, que viria a ser o sétimo presidente dos Estados Unidos. 

            Segundo Richard Bell, que anos depois escreveu um livro sobre assombração, a Bruxa de Bell (tal como foi chamada a força que estava por trás das perturbações fantasmagóricas) começou a manifesta-se mediante ruídos de batidas e raspões nas portas e janelas da casa da família. Pouco tempo depois, o barulho começou a ser ouvido dentro da casa, aumentando em volume e variedade. Embora a assombração parecesse estar centrada na jovem Elizabeth Bell, que tinha 12 anos quando os distúrbios começaram, todos os membros da família relataram acontecimentos estranhos. Afirmaram ouvir criaturas fantasmáticas arranhando o assoalho, roendo os móveis e batendo asas contra o teto. Conforme o relato de Richard Bell, sua paz fora rompida por ruídos de uma furiosa biga de cães, ou por um estrondo no telhado que lembrava uma chuva de granizo: o sono era perturbado pelo clamor de móveis sendo deslocados e pelo retinir de correntes e outros objetos pesados arrastados pelo assoalho. Alguns dos ruídos misteriosos, como de engasgamento, estalar de lábios e deglutição, pareciam horrivelmente humanos. Em um ano os ruídos alcançaram um tal nível de violência que a casa praticamente tremia em suas fundações, como se estivesse sob um ataque de artilharia. 

           Fenômenos de poltergeist  mais sinistros seguiram-se aos ruídos A família relatou dolorosos ataques pessoais. Richard, então com 10 anos, contou como foi acordado violentamente certa noite por um puxão nos cabelos, sentindo como se o topo da cabeça estivesse sendo arrancado por um atacante invisível. Seus berros de dor acordaram seu irmão Joel, e logo seus gritos de medo e susto foram acompanhados pelos de Elizabeth, no quarto ao lado. Daquela noite em diante, Elizabeth sentiu a Bruxa de Bell puxando-lhe os cabelos todas as vezes que ia para a cama.

          Enquanto a assombração se limitava a ruídos perturbadores a família Bell manteve a coisa em segredo, mas quando começaram os ataque contra as crianças eles confiaram sua história a James Johnson, um vizinho, amigo íntimo e companheiro de devoção cristã. Johnson tentou exorcizar a Bruxa de Bell falando com ela em linguagem bíblica, ordenando-lhe que partisse em nome de Jesus Cristo. Esse remédio pareceu dar um fim à assombração - mas só temporariamente. Grande parte da violenta atividade do poltergeist concentrava-se em Elizabeth, e seu fantasmagórico torturador logo recomeçou suas brincadeiras cruéis, puxando-a pelos cabelos até que ela gritasse e esbofeteando-lhe o rosto com força bastante para deixar marcas vermelhas em suas bochechas. 

          Para aliviar a menina, John Bell e James Johnson pediram ajuda a outros vizinhos. Mandaram Elizabeth  para a casa de amigos da família, mas a Bruxa deBell, com seus ataques e perturbações, parece ter ido atrás dela. 

           Aparentemente, não havia segurança para ninguém que estivesse por perto. O vizinho William Porter, que passou uma noite na casa dos Bell, relatou uma presença física em sua cama, puxando os lençóis. Ele pulou e descobriu que o cobertor estava enrolado em uma trouxa, ao lado da cama.  Convencido de que essa era sua oportunidade de capturar e destruir a "bruxa", ele agarrou o cobertor enrolado e atravessou o quarto para atirar a trouxa no fogo da lareira, mas não conseguiu chegar até lá. O capote em seus braços ficou imensamente pesado, além disso, exalou um cheiro que Porter descreveu depois como "o mais ofensivo fedor que jamais senti". Vencido pelo cheiro, ele deixou cair o cobertor e correu em busca de ar fresco. Quando voltou e sacudiu o cobertor, ele estava vazio - sem cheiro. 

           Johson e outros vizinhos logo tentaram falar com a Bruxa de Bell. Conta-se que a entidade respondeu às questões deles com um leve assobio que foi gradualmente progredindo para uma fraca voz murmurante, quase impossível de ser entendida. Finalmente, recordou Richard Bell, o murmúrio ficou mais claro, de modo que foi possível entendê-lo. "As palavras eram ouvidas em quartos claros ou na escuridão", escreveu Bell, "e finalmente de dia, a qualquer hora." Algumas testemunhas desconfiaram que Elizabeth pudesse ser ventríloqua, mas um médico que visitou a casa certa ocasião tampou a boca  d menina com a mão e declarou-se convencido de sua inocência. 

            De acordo com testemunhas, a voz da bruxa foi ficando mais forte, e novas vozes apareceram, algumas masculinas,outras femininas, todas grosseiras e abusivas. Proferiram ameaças macabras e mexericos locais comprometedores, inclusive acusações de alcoolismo e maus tratos a crianças, entre outros vícios. A voz da bruxa parecia deleitar-se especialmente na tentativa de romper um romance entre a agora adolescente Elizabeth e seu marido prometido, um jovem chamado Joshua Gardner.  Em um sussuro suave e gentil, conta-se que ela instava: "Por favor, Betsy Bell, não fique com Joshua Gardner. Por favor Betsy Bell, não se case com Joshua Gardner." Com uma disposição mais ameaçadora, ela avisou a um dos irmãos de Elizabeth que sua irmã não teria paz ou felicidade se levasse adiante o plano de casamento. E quando Elizabeth e Joshua estavam juntos na companhia de outros, ela fazia observações tão embaraçosas sobre os dois que a moça tinha ataques histéricos. Incapaz de suportar as provocações da bruxa. Elizabeth rompeu o noivado. Depois disso, ela começou a ter reações físicas, caindo em desmaios semelhantes aos observados  nos médiuns em transe. Respirando ofegante, ela mergulhava em uma esgotada inconsciência por tinta ou quarenta minutos de cada vez. Durante esses episódios exaustivos, o pai dela queixava-se de rigidez e de outras sensações estranhas na boca; uma vez, sua língua inchou o bastante para impedi-lo de comer ou falar por horas.  Também começou a ter espasmos violentos e incontroláveis  dos músculos faciais, uma aflição tão grave e duradoura que o obrigou a ficar de cama. O tempo todo, ouvia-se a voz da Bruxa de Bel xingando o "Velho Jack Bell", que era como ela o chamava, nos termos mas extremos e ofensivos, ameaçando segui-lo até sua tumba. 

            As tentativas de cura produziam resultados grotescos. Um charlatão deu a Elizabeth uma poção purgativa particularmente ruim, que provocou o que um amigo da família descreveu como "uma copiosa evacuação do estômago". Um exame de vômito revelou que estava cheio de afiados alfinetes e agulhas. Em outras ocasiões, membros da família encontravam alfinetes com a ponta para fora nos estofados e travesseiros da casa. 

           John Bell estava ainda pior que a filha. Sempre confinado em seu leito, certa manhã ele deixou de acordar.  Não conseguindo despertá-lo , John Bell, Jr. examinou o armário de remédios do pai e encontrou um frasco com um líquido escuro no lugar do medicamento receitado pelo médico da família. Segundo Richard  Bell, a voz da bruxa gritou em triunfo, afirmando ter envenenado John com uma dose do estranho liquido do frasco. O médico foi chamado e testou o conteúdo do frasco dando algumas gotas ao gato da família, que caiu morto na hora. Depois disso, o médico jogou os restos d mistura desconhecida no fogo. John Bell foi declarado morto na manhã seguinte. Diz-se que a bruxa, que aparentemente não desejava deixá-lo descansar em paz, perturbou o funeral de Bell cantando canções grosseiras. 

             Com a morte de John Bell, a assombração parece ter chegado ao final. Pouco foi visto ou ouvido da bruxa por vários meses, quando, segundo se conta, um objeto parecido com uma bala de canhão caiu pela chaminé da lareira e explodiu em uma nuvem de fumaça. Consta que foi ouvida uma voz que dizia:  "Estou partindo e estarei longe por sete anos ." Fiel a essa profecia, a assombração cessou, e umas poucas manifestações voltaram sete anos depois. Nessa altura Elizabeth tinha se casado e estava morando longe dali e os únicos ocupantes da casa eram a viúva Luce e dois filhos. Desta vez, porém, os eventos foram leves - alguns ruídos de raspagem e puxões na roupa de cama - e durante apenas duas semanas. Antes de desaparecer, no final desse período, a bruxa prometeu voltarem 107 anos. A data marcada para seu retorno chegou em 1935, mas felizmente nada aconteceu. 

           Em seu diário sobre o caso, chamado Os apuros de Nossa  Família, de 1846, Richard Bel concluiu que desde o início a bruxa parecia ter dois propósitos. "Um era a perseguição de Papai até o fim da vida. O outro era o vil propósito de destruir  a felicidade antecipada que estremecia o coração de Betsy." Examinando o caso muitos anos depois, o célebre psicanalista e pesquisador da paranormalidade húngaro Nandor Fodor concluiu que a bruxa não era um fantasma ou espírito  de um morto que voltara para assombrar os Bell. Sugeriu em vez disso que "a Bruxa veio à vida manifesta através de Betsy Bell". Isto é, segundo Fodor, era uma divisão de personalidade da própria Betsy, formada no início da puberdade, que se desenvolvera como entidade independente.

       


 

terça-feira, 17 de janeiro de 2023

FANTASMAS NAS IGREJAS DA INGLATERRA

 


 

 

            Na abadia de Westminster, em Londres, a imagem fantasmagórica e um monge assusta regularmente os visitantes noturnos ao deslizar pelas naves laterais. Na abadia de Watton, em Yorkshire, muitos contam ter visto Elfrida, uma ex-noviça que dizem assombrar aquele santo lugar. O chamado Cônego Negro, o mais bem documentado fantasma de um homem santo da Grã-Bretanha, aparece com frequência, segundo consta, no mosteiro de Bolton, perto de Skipton, em North Yorkshire. Com efeito,toda a Inglaterra parece fervilhar de aparições, assombraçõe4s e outros fenômenos relacionados com seu tempestuoso passado religioso. 

            Os estudiosos dessas coisas atribuem os eventos misteriosos à  ruptura de Henrique VIII coma Igreja Católica Romana no século XVI. A cisão foi seguida pela chamada Dissolução, quando o rei dissolveu os mosteiros e conventos, confiscando as propriedades da Igreja. Os monges que protestaram - notadamente os de Yorkshire e Lincolnshire, que lideraram o levante conhecido como Romaria da Graça - foram tratados com rigor. 

             Henrique, "sem piedade ou consideração", segundo contou ao duque de Norfolk, ordenou que "todos os monges e cônegos que estiverem de algum modo em falta" sejam "detidos sem mais delongas ou cerimônia, para terrível exemplo dos demais".  Estes foram os que tiveram sorte. Outros resistentes foram enforcados, executados e esquartejados. 

            Com essas medidas, as hostes religiosas foram dizimadas e os edifícios eclesiásticos pilhados convertidos em casas particulares,  ou simplesmente abandonados. Muitos caçadores de fantasmas acham que os monges e freiras fantasmagóricos que dizem habitar tantos antigos conventos, mosteiros e igrejas da Inglaterra estão condenados a assombrar esses recintos até que sua antiga religião seja restabelecida. 

                Os que frequentam as igrejas de York, a  pitoresca sede da diocese do norte da Inglaterra, afirmam ter visto precisamente um desses fantasmas. A Igreja da Santa Trindade em York foi outrora parte de um mosteiro beneditino dissolvido por Henrique VIII. Diz a  lenda que a prioresa se negou a permitir que os soldados do reino entrassem no convento. Rejeitando a ordem de Dissolução de Henrique, jurou morrer antes de submeter-se. Ao ser atacada pelos soldados, antes de expirar ela fez um voto de assombrar o mosteiro. Em várias ocasiões - muitas vezes no domingo da Trindade - frequentadores da igreja contaram ter visto um fantasma, com manto e capuz, flutuando acima do solo, pelos meandros do edifício. 

 

ESPECTROS APAVORANTES E CAÇADORES DE FANTASMAS

 


           Os acontecimentos macabros em Ash Manor começaram no início do verão de 1934, quando um homem chamado Maurice Kelly comprou a casa do século XIII e seus dez alqueires de florestas. Bastou que se mudasse com a esposa, Katherine, e a filha de 14 anos, para que família começasse a ser perturbada por um barulho vindo da mansarda. Parecia que alguém estava batendo o pé nas tábuas do assoalho - o que era impossível, posto que este fora  removido, deixando apenas as traves nuas. 

          Os ruídos eram inquietantes, mas de modo algum amedrontadores a ponto de obrigar o novo proprietário a levantar acampamento e abandonar a casa. Kelly era um homem de  negócios, nem um pouco dado a fantasias, que comprara a casa por uma bagatela e estava muito contente com seu excelente negócio. Não estava disposto a fugir de fenômenos que podiam ser razoavelmente explicados pelos ruídos a que as casas velhas costumam estar sujeitas. Porém, na noite de 18 de novembro, sua reconfortante racionalização começou a desabar. 

          Kelly foi tirado de um sono profundo por fortes batidas na porta de seu  quarto. Levantou-se e foi até os aposentos da esposa, no fim do corredor. Teria ela ouvido alguma coisa? "Sim", respondeu ela, "três pancadas violentas". Tal como contou depois a um investigador de paranormalidade, exatamente na mesma hora, na noite seguinte - às 3,45 horas da manhã -, ele foi despertado por duas batidas na porta, e na noite posterior por uma batida. Por várias noites depois disso, enquanto Kelly estava em viagem de negócios, o silêncio reinou em Ash Manor, mas o horror continuava por perto. Ao recolher-se, na noite de sua chegada, ele sentiu-se estranhamente inquieto. "O frio do quarto era natural", contou depois, "e havia nele alguma coisa de desagradável", Kelly caiu no sono por volta das três da manhã - e logo sua modorra foi interrompida por uma violenta pancada na porta. 

        "Sentei-me de um salto", lembrou-se. "Parado na porta eu vi um homenzinho meio velho, vestido com uma bata verde, calças e botinas muito enlameadas, um chapei mole na cabeça e um lenço no pescoço. "Para Kelly nada havia de fantasmagórico no intruso, que parecia solidamente humano. Supondo que um vagabundo houvesse entrado na casa, Kelly gritou> "Quem é você? O que quer na minha casa?" Não obtendo resposta, saltou da cama e tentou agarrar o ombro do visitante. A última coisa de que se lembra é que sua mão passou através da figura.

     A senhora Kelly, por sua vez, ao contar o caso disse que a essa altura ouviu "um grito aterrador"; e que depois disso seu marido entrou correndo no quarto e desmaiou. "O rosto dele estava lívido, os olhos saltados e o terror estava em todas as linhas de seu semblante", contou ela. Temendo que estivesse à morte, sua primeira ideias foi ir buscar um pouco de bebida medicinal; correu pelo corredor até o quarto onde estava a chave da adega. Quando ia voltando, viu parado na porta do quarto do marido um homem  bem baixo. Apesar de Maurice ter desmaiado antes de dizer a ela o que vira, sua descrição do estranho coincidia em todos os pontos com a do marido -e ela acrescentou alguns detalhes. 

        "O rosto dele era bem vermelho", contou, "os olhos horríveis e malévolos, a boca aberta e babada". Por mais assustador que fosse, Katherine enfrentou-o. "O que quer?", quis saber. "Quem é você?". Tendo o silêncio por resposta, ela tentou acertar-lhe um soco, mas passou através dele e só conseguiu socar o batente da porta.

          Nos meses seguintes, os ruídos fantasmáticos noturnos continuaram. Pior ainda, viram o "homem verde" tal como vieram a chamá-lo, umas das duas dúzias de vezes. Certa vez, contou Katherine, a aparição levantou deliberadamente o queixo para mostrar uma ferida escancarada "a toda a volta do pescoço. Uma coisa horrível saia para fora, como uma traqueia cortada". O aflito casal procurou ajuda de um sacerdote, que invocou as bênçãos de Deus sobre a casa. Essa tentativa de exorcizar o terrível fantasma só piorou as coisas. "Por duas noites", contou a senhora Kelly, "fiquei ajoelhada de fora de minha porta, rezando e lutando contra uma força tangível do mal".

         Desesperado o Sr. Kelly pôs um anúncio em uma revista, solicitando assistência especializada. O anúncio foi respondido por dois supostos caçadores de fantasmas que teceram um conto inventivo sobre o fantasma de um sapateiro do século XIX que buscava vingar-se de uma leiteira que rejeitara seus avanços.Depois de garantir aos Kelly que não seriam mais molestados, a dupla recebeu seus gordos honorários e foi embora. Mas a assombração de Ash Manor continuou por lá. 

        Finalmente, em julho de 1936, os apuros dos Kelly chegaram aos ouvidos do doutor Nandor Fodor, um psicanalista com ávido interesse pelo paranormal. Quando começou a investigar os problemas de Ash Manor, Fodor havia sido recentemente nomeado pesquisador chefe do Instituto Internacional de Pesquisas Psiquiátricas, em Londres. Chegando à casa, ele começo a trabalhar de maneira ordenada. Em primeiro lugar inspecionou o local, assegurando-se de que os barulhos não podiam  ser causados por defeitos estruturais. Depois entrevistou Kelly, que lhe pareceu ser "um materialista cabeça-dura e teimoso, nem um pouco inclinado para as questões psíquicas". Em seguida, ouviu a história da senhora Kelly e entrevistou a filha, Patrícia. 

        Em seus preparativos finais, instalou uma câmera fotográfica ao pé da escadaria de Ash Manor, onde, segundo os Kelly, a aparição fora vista com maior frequência. 

         Fotografar fantasmas era então, e ainda é, um empreendimento de eficácia discutível, mas Fodor estava claramente convencido de que poderia ser bem-sucedido."Com uma lente de quartzo e placas especialmente sensibilizadas", explicou, "a receptividade das partes invisíveis do espectro pode ser aumentada. Desse modo um fantasma, apesar de invisível para nós, pode ser fotografado, contanto que sua imagem apareça dentro do foco e na faixa certa do ultravioleta."

        Com seus aparelhos instalados , o doutor começou aquilo que chamaria depois de "vigília fantasmagórica". Em dado momento, durante a noite, ele espantou-se com dois fortes baques vindos do quarto de Patrícia, mas não eram de origem espectral. O que aconteceu foi que a menina, aborrecida por estar confinada em seus aposentos para não atrapalhar a investigação, bateu com o pé no chão. Mais tarde, Fodor ouviu um tenebroso barulho borbulhante - e logo descobriu que a senhora Kelly estava fazendo gargarejos antes de deitar-se.  "Só foi dormir às 6,15 horas da manhã", lembrou Fodor. "durante a noite, expus diversas chapas. Nenhuma delas mostrou nada."

         Uma segunda vigília de uma noite inteira tampouco teve resultados, mas Fodor perseverou. Por acaso, a famosa médium americana Eileen Garrett estava na Inglaterra na época e respondeu a um pedido de auxílio de Fodor. Na noite de 25 de julho de 1936, sentada diante de uma enorme lareira na casa antiga e sombria, Garrett entrou em transe e, aparentemente, foi logo tomada pela entidade chamada Uvani, que se supunha ser um árabe há muito falecido que frequentemente supervisionava o acesso de outros espíritos à médium. Qual era a explicação, perguntou Fodor, para a assombração de Ash Manor? Nesse momento, Uvani disse que sairia do caminho para que o fantasma invasor  tomasse o corpo de Garrett e falasse por si mesmo. 

        A respiração da médium ficou pesada, o corpo rígido e, segundo o relato de Fodor, suas feições transformaram-se nas de "um homem torturado, com as bochechas murchas, a boca semi-aberta e uma expressão de indizível agonia em todo o semblante". Garrett fez sinal para que Fodor se aproximasse e depois estendeu a mão e agarrou-lhe o braço com tanta força que ele gritou de dor. Em uma voz estrangulada, a médium exclamou: "Eleison! Eleison!, que quer dizer "piedade,piedade".  Falando em frases interrompidas e muitas vezes incompreensíveis, aparentemente em inglês arcaico, o suposto espírito pedia para unir-se à esposa. "Suplico-lhe, amigo", disse através da médium, "encontre o lugar de repouso dela. Você é amigo. Encontre-me minha esposa." "A parição, se tal fosse, bradava contra "Buckingham" - presume-se que se referisse  a um dos duques ingleses com esse nome. "Ele ofereceu-me ducados e vastos alqueires por minha esposa", contou. "É meu inimigo. Deixou-me apodrecer aqui sem meu filho. Espero notícias de meu filho. Ele me fez isso, aquele bastardo real. (...) Posso sua alma queimar naquele inferno do qual não há escapatória."

         Fodor chamou Maurice Kelly, que, olhando para a médium, cambaleou e murmurou: É a exata imagem do fantasma." Então Katherine Kelly aproximou-se e, como lembrou Fodor depois, "ficou da cor do gesso". Cobrindo o rosto com as mãos, ela soluçou. "Meu Deus", e afastou-se da médium. Momentos depois, o espírito pareceu falar de novo, pedindo uma pena. Fodor trouxe papel e caneta e a médium começou a escrever, com uma caligrafia peculiar que, conforme alguns pesquisadores atestaram, não poderia ser dela. "Henley" rabiscou uma escrita diferente da sua. E depois: "Edward Charles". E finalmente: "Esse". Esta última palavra, soube-se depois, fora outrora o nome de uma aldeia perto Ash Manor. 

       Aparentemente, o nome do fantasma em vida fora Henley e, em resumo, sua história era esta: ele Buckingham eram amigos de infância, mas quando adultos se desentenderam em virtude de Buckingham cobiçar a esposa  de Henley, Dorothy. "ele forçou os olhos dela", reclamava o fantasma. O sentido preciso dessa frase não ficou claro, mas parecia querer dizer que Buckingham  havia seduzido Dorothy, deixando Henley de tal modo indignado que seu fantasma continuava agarrado à terra, sedento de vingança. "Não me deixe", pregava o espírito a Fodor, "mas ajude-me a obter minha vingança." A vingança, replicou Fodor, deve ser deixada  a Deus. "Não me fale de Deus", gritou o fantasma. "Ele me deixou sofrer. Quero minha vingança."

         Fodor estava bem familiarizado com a noção, comum a muitos ocultistas, de que o ódio e a vingança estavam entre os motivos mais correntes que mantinham os espíritos ligados à terra. Os fantasmas só podiam libertar-se, dizia a teoria, renunciando a essas paixões. Cm isso em mente, o pesquisador tentou a persuasão.  "Você pode ser livre e feliz se desistir de seus pensamentos de vingança que o prenderam à terra", argumentou. "O que deseja: vingar-se ou juntar-se a sua esposa e a seu filho? O espírito vacilou, procurou desviar-se da questão e finalmente decidiu: "Por eles, sim."

         "Nesse momento", escreveu Fodor, "alguma coisa pareeu acontecer-lhe. Ele gritou e agarrou de novo minha mão: 'Segure-me, segure-me" Não consigo ficar. Estou escorregando. Não me deixe, não me deixe!". "E o corpo de Eileen Garrett desabou sobre a poltrona. Pelo jeito,o fantasma de Ash Manor havia ido embora.

        Mas não por muito tempo. Já na noite seguinte, Kelly, aflito, ligou para Fodor, "Ele está aqui de novo!", exclamou. "Está em pé, parado na porta de entrada, abrindo a boca  tentado falar." Fodor foi para o apartamento de Garrett em Londres discutir a reaparição. Mais uma vez, a médium pareceu entrar em transe e seu guia espiritual declarou o que pensava sobre a persistência do espectro. O espírito de Henley nutria-se, disse Uvani, das tenssões existentes no interior da família Kelly. Somente depois que essas tensões fossem aliviadas o espectro iria embora para sempre. Diante dessa afirmação, o aflito casal Kelly contou uma história infeliz: Maurice era homossexual e sua esposa, para aliviar as frustrações sexuais, tornara-se viciada em morfina. Fodor escreveu mais tarde que os Kelly haviam usado o fantasma como "um elemento de distração, uma espécie de tranquilizante, que ajudava a manter a família unida". Apressou-se em acrescentar que nem por isso a aparição era menos real. Fosse como fosse, a conclusão pareceu aliviar as coisas. Quaisquer que fossem suas origens e sua natureza, qualquer que fosse o combustível emocional que o alimentava - suas próprias paixões infelizes ou as dos outros -, o fantasma de Ash Manor nuca mais foi visto. 

         Há céticos que hesitariam em descartar o caso Ash Manor, quando mais não fosse por ter em Nandor Fodor seu principal relator, pois ele não era o mais confiável dos caçadores de fantasmas. Parecia ter ânsia de acreditar nos fantasmas que procurava, tornando sua objetividade questionável. Apesar disso, seu passatempo de caçador de espectros incluía-o em uma categoria especial e muito mal interpretada. . Era raro que a principal missão dos pesquisadores  da paranormalidade fosse"sossegar o fantasma", que é como eles se  referem ao ato de desencantar um espírito. Mais do que isso, livrar residências de espectros que assombram - quando isso acontece - é apenas um subproduto de sua tentativa de determinar a realidade de um mundo espectral e, presumindo que é real, estudar sua natureza. Desde que os fantasmas começaram a assombrara consciência  humana, os seres humanos de certo modo assombram os fantasmas, tentando incansavelmente descobrir se eles são de fato espectro de além-túmulo ou meros eflúvios de percepções e paixões distorcidas dos vivos. 

        na busca de respostas, os caçadores de fantasmas desenvolveram uma variedade de técnicas. De vez em quando, um método particular esteve na moda e foi abandonado, sendo adotado novamente à luz de novas experiências. Os médiuns,por exemplo, foram por muitos anos considerados como os melhores canais para a comunicação com os espíritos dos mortos. Por volta de meados do século XX, porém, o estudos dos fenômenos paranormais, que sempre esteve estreitamente ligado ao estudo dos fantasmas, mudou em grande parte das salas de sessão para os laboratórios e salas de aula, por influência do pesquisador Joseph Banks Rhine, da Universidade Duke. Ele buscava apoio no método científico, não no espiritismo, e suas  experiências produziram provas que os parapsicólogos acreditam significativas de percepção extra-sensorial. 

        Mas a questão de saber se talentos como a telepatia e a clarividência - no caso de existirem - figuram na comunicação com os mortos nunca foi a principal preocupação de Rhine e seus colegas, e ficou sem respostas.  Nos anos mais recentes, alguns críticos encontraram falhas na metodologia de Rhine; houve pesquisadores que voltaram a recorrer aos consagrados intermediários. Os médiuns recuperaram sua função, embora a tendência moderna seja a de avaliá-los com o auxílio de todos os instrumentos sensíveis de detecção que a tecnologia moderna possa proporcionar. 

          Seja qual for o sistema usado pelo pesquisador, sua busca será com certeza cheia de obstáculos. Frequentemente as assombrações desaparecem por longos períodos, e às vezes o caçador espera semanas até que o suposto fantasma se manifeste. Enquanto isso, a vida dos moradores da casa que se considera assombrada é seriamente perturbada pela presença do caçador com seu equipamento. Eventualmente, essas famílias chegam a achar que o fantasma é menos incômodo do que o humano que está em seu encalço. Além disso, é raro que os espectros colaborem com os caçadores.  Alguns pesquisadores acreditam que a mera presença de um deles pode fazer um fantasma ficar meses sem aparecer. 

         Mesmo nas ocasiões pouco frequentes em que um pesquisador da paranormalidade acredita estar de fato em contato com um espírito assombrador, precisa ter cautela em aceitar sem restrições o que este diz - mesmo que seja só porque, como disse o escritor e jornalista G. K. Chesterton, os fantasmas mentem. E os seres humanos também, infelizmente;  ao empreender uma investigação, é essencial que o caçador de fantasmas verifique se a suposta assombração não poderia ser explicada em termos de embuste, fraude, histeria  ou outras ações de natureza terrena. 

        Segundo Andrew Mackenzie, importante autoridade em assombrações, "deve ser procurada uma explicação normal para a experiência, antes de aceitarmos uma hipótese paranormal". Devotado defensor dessa doutrina, o pesquisador inglês G. W. Lambert publicou em 1960 os resultados de uma extenso estudo da correlação entre os edifícios supostamente assombrados de Londres e sua proximidade com cursos d'água sujeitos aos efeitos da maré que houvessem sido "cobertos por construções ou ocultos da visão de um modo ou de outro". 

         Nos 25 casos descritos por Lambert no Journal of the Society for Psychical Recerch, não menos de vinte estavam situados sobre um curso subterrâneo, ou nas vizinhanças de um. Lambert descobriu uma significativa relação entre as assombrações relatadas e os períodos em que a precipitação atmosférica em Londres anormalmente pesada. A teoria de Lambert: imensas pressões hidráulicas acumuladas por chuvas excessivas podem , com efeito, erguer um prédio, fazendo com que este se incline. Quando a pressão diminui, a estrutura volta subitamente a seu lugar, provocando fortes ruídos e até mesmo o deslocamento de objetos, fenômenos muitas vezes associados a assombrações e poltergeist. 

         Um ano antes, Lmbert publica um estudo sobre cinquenta locais escoceses onde acontecimentos paranormais haviam sido relatados. Dezenove estavam na região calcária em torno de Firth Of Forth, onde abundam as correntes subterrâneas. Entre os demais, apenas três não estavam nas vizinhanças de falhas geológicas, onde eram comuns os tremores e abalos sísmicos. Lambert descobriu que todos os eventos fantasmagóricos haviam ocorrido em períodos de alta atividade sísmica. "O que se afirma aqui", escreveu, "é que um tranco transmitido a uma casa a partir do subsolo (...) pode difundir-se pela estrutura da construção atingindo objetos soltos nos cômodos,que podem 'voar', sem provocar dano na casa, se as fundações forem sólidas." Nem é preciso acrescentar que os tremores de terra podem causar ruídos estranhos. Nisso pode estar pelo menos parte da solução para um dos mistérios mais desconcertantes da história dos fenômenos paranormais - as assombrações de Ballechin House. 

 

          Outro estudioso incontestável foi o Sr. William Crookes. Nascido em Londres, em Regent Stret, a 17 de junho de 1882, foi o primeiro cientista  de alto gabarito que, na Europa, com surpreendente desassombro e admirável coragem, estudou com severas e incomuns precauções científicas, o fenômeno mediúnico, concluindo sem vacilações ou receios, com esta memorável profissão de fé raciocinada: "O espiritismo está cientificamente demonstrado e seria covardia moral negar-lhe o meu testemunho."

         Para apresentação desse nome venerando, verdadeiro missionário da ciência, demos a palavra ao insigne e insuspeito doutor Josef  Lapponi, escritor, clínico, professor de Antropologia, protomédico de dois Papas (leão XIII e Pio X), que, em estudo médico-crítico publicado sob o títulos de "Hipnotismo e Espiritismo" desfazendo as agressões com que pretendiam enodoar a reputação científica  de Crookes, declara, do alto de sua cátedra, com corajosa lealdade: "Físico igual aos maiores do mundo inteiro; que, aos vinte anos de idade, já havia apresentado importante trabalho sobre a polarização da luz; que, mais tarde, publicou trabalhos magníficos sobre espectros luminosos dos copos celestes; que inventou o fotômetro de polarização e o micro-spectroscópio; que escreveu obras notáveis sobre a química, e, especialmente, um trabalho de análise que se tornou clássico; que fez descobertas preciosas em astronomia e que contribuiu, grandemente, para o progresso da fotografia celeste; que foi enviado pelo Governo inglês a Oran para estudar um eclipse do Sol; que  descobriu um novo metal, o "talium", e que,enfim, revelando à ciência o estado radiante da matéria, entrevistado por Faraday, abriu caminho para a descoberta dos raios Roentgen, que se emprega para fotografar o invisível a olho nú."

       "Esse homem, de inteligência tão alta e de ciência tão vasta, que passou sua vida a interrogar, com vigor extremo, os segredos  da Natureza, foi quem submeteu a exame minucioso os fenômenos espíritas sob crítica severa da experimentação moderna, assistido, nessas pesquisas, de dois outros físicos de valor, William Huggins e Edmundo W. Cox."

        Com auxílio de instrumentos  de precisão e de registradores automáticos, Crookes examinou, nos seus mínimos detalhes, os fenômenos produzidos sob os seus olhos. Ele experimentou, alternativamente, nas trevas e em pleno dia; fora e dentro das salas por ele escolhidas, à luz elétrica e à luz fosfórica". E, assim, conclui o Dr. Lapponi: "Ora, depois de ter estudado os fenômenos espíritas, através de todo esse aparelhamento de precauções e com o maior ceticismo científico, Crookes se viu obrigado a repetir, lealmente, o que, antes dele, Alfred Russel Wallace, o inventor da célebre hipótese da seleção natural, já havia dito: "Adquiri a prova certa da realidade dos fenômenos espirituais."

        Charles Richet, Prêmio Nobel de Fisiologia, em conferência pronunciada na Faculdade de Medicina de Paris, em 24 de junho de 1925, com sua inconteste erespeitável autoridade, perante severo auditório, classificando William Crookes, textualmente, como "um dos maiores ábios do nsso tempo e de todos os tempos", assim se referiu à suas célebres experiências e sua obra científica ("Ciência Metapsíquica").

         "Croos viu, em plena luz, mesas e cadeiras se deslocarem, flores aparecerem e se moverem, um acordeão passar sobre a sua cabeça e tocar; ruídos retumbantes se produzirem, diante de sábios honestos experimentados."

          "Crookes viu Florence Cook (a médium) desdobrar-se em um fantasma; observou com o auxílio de uma lâmpada de fósforo, em seu próprio laboratório,e por muitas vezes, o fantasma  de Katie King conversando com Florence."

         "Como se explica esses fatos não tenham sido admitidos, e que se tenha inventado, para explicá-los, toda a sorte de inépcia calunioso? Certo é porque os homens e os sábios, talvez, ainda mais que todos, têm medo das coisas novas." Informações  extraídas do Reformador. 

          No início da noite de 3 de fevereiro de 1897, Ada Goodreich, uma mulher de etérea beleza,e sua companheira Constance Moore, filha do capelão da rainha Vitória, atravessaram pela neve profunda até a porta de Bellechin Hauze, nas remotas Highlands escocesas, acima do escuro vale do rio Tay. Antes mesmo de entrar no recinto, Freer foi tomada por um sentimento de medo.  "A casa parecia muito lúgubre", escreveu mais tarde, "lá dentro, parecia uma tumba." Para Freer, envida como pesquisadora da Sociedade de Pesquisas  Psíquicas, Ballehin House era rica no tipo de histórias pelas quais ela se sentia fortemente atraída.

         Construída em 1806 nas terras hereditárias da família Steuart, descendente do rei Roberto II da Escócia, Ballechin House pertencia, por volta de1850, ao major Robert Steuart, , funcionário aposentado da Companhia das Índias Orientais. Sob qualquer ponto de vista, Steuart era um tipo peculiar. Solteiro e misantropo, povoou a casa com quatorze cães, entre os quais um grande spaniel negro que era seu predileto. Durante sua estadia na Índia, o major passara a acreditar na trans-migração das almas, e gostava de declarar que após sua morte ele voltaria para a terra no corpo do  spaniel negro. A única companhia humana de Steuart era sua governanta, uma jovem chamada Sara, que morreu em 1873 em circunstâncias descritas na região como misteriosas. As línguas da vizinhança ficaram frenéticas quando se soube que ela falecera no quarto de Steuart, e mais ainda quando, após a morte dele em 1876, seu testamento decretou que eu corpo deveria ser enterrado ao lado de Sarah. 

        Para os herdeiros de Steuart, a prometida transmigração de seu excêntrico, desagradável e ligeiramente mal afamado parente era sem dúvida uma eventualidade inoportuna; como medida preventiva, mataram todos seus cães - começando pelo spaniel negro. O herdeiro de Bellechin House era John Steuart, um sobrinho católico devoto, que logo reformou uma pequena casa na propriedade para servir como retiro para freiras. 

         As assombrações começaram logo depois que John Steuart se mudou com a família para a casa. Certo dia, trabalhando em suas contas domésticas, a senhora Steuart sentiu um cheiro difuso de cães, que conhecia do tempo em que eles enchiam a casa do velho major. Quando foi abrir a janela, sentiu roças suas pernas uma presença que, de algum modo, ela soube ser o de um cão. 

          Nos anos seguintes, os residentes de Ballechin House contaram ter sido perturbados por ruídos noturnos - batidas inexplicáveis, ruídos secos, explosivos, e até mesmo vozes raivosas de pessoas que pareciam estar brigando, embora as palavras fossem irreconhecíveis. Especialmente assustador era o nítido barulho  de passos de alguém - ou alguma coisa - mancando no quarto em que Sarah havia morrido. O major Robert Steuart voltara da Índia mancando fortemente. 

         No verão de 1892, um padre jesuíta chamado Hayden chegou a Ballechin House para cuidar das necessidades espirituais das freiras do retiro. Em oito das nove noites que passou na casa, contou, foi perturbado por "ruídos muito estranhos e extraordinários". De algum lugar entre a cama dele e o teto vinham sons "como contínuas explosões de petardos" (bombas).  De tempos em tempos ele ouvia algo que lhe lembrava "um animal grande arremessando-se contra a porta", mas, quando examinava o corredor,não havia nada. "Nada", escreveu depois o sacerdote, "poderia induzir-me a passar a noite lá (...) e em outros aspectos não acho que eu seja um covarde."

        Três anos depois, durante uma visita a Londres, John Steuart foi atropelado e morto por um fiacre (carruagem de um só cavalo). Com ele morto, Ballechin foi assumida por outro Steuart, um capitão do exército que não tinha o menor desejo de morar lá. Em vez disso arrendou a propriedade para uma família abastada que pagou um ano adiantado pelo privilégio duvidoso de ficar na casa e caçar galos selvagens nas extensas terras. Mas após sete semanas de residência, repletas de aterrorizantes ruídos noturnos, os novos inquilinos fugiram  sem nem ao menos reivindicar um reembolso pelo que restava do contato.   

       Para John Crichton Steuart, terceiro marquês de Bute e entusiasta da paranormalidade, a disponibilidade imprevista de Ballechin House era uma oportunidade que ele esperava há muito. Tendo ouvido falar da tradição fantasmagórica da casa vários anos antes pelo padre Hayden, Bute decidiu promover uma investigação completa. Consegui apoio da Sociedade de Pesquisas Psíquicas, que designou dois de seus pesquisadores para o caso - o coronel Lemesurier Taylor, um pesquisador veterano, Ada Goodrich Freer. Bute pagou para que Taylor arrendasse Ballechin House, mas não pode viajar para lá imediatamente por causa de negócios de família. 

      Freer chegou à casa com uma companhia, antes de um grande grupo de hóspedes que ela havia escolhido justamente com Taylor, em parte por pessoas que não sabiam do passado sinistro da mansão, e em parte porque todos eram considerados sensíveis às ocorrências fantasmagóricas, ou tinham o espírito aberto acerca desse assunto. 

       Em geral os caçadores de fantasmas precisam resignar-se a esperar semanas ou meses antes que os fantasmas de plantão se dignem a apresentar-se. Mas não Ada Feer. Segundo o livro de 250 página que ela escreveu mais tarde sobre o caso, ela foi acordada na primeira noite por "um forte clangor (barulho) que parecia ressoar por toda a casa". Um pouco depois, Freer e sua amiga Constance Moore ouviram vozes; na noite seguinte, ficaram estarrecidas ao ouvir uma voz que parecia a de um padre rezando missa. (Este, soube-se depois, era um dos fenômenos mais comuns em Ballechin House.)

        Na terceira noite, Freer e seus hóspedes consultaram uma tábua Ouija, cuja prancheta no mesmo instante soletrou a mensagem de um espírito que chamava a si mesmo de Ishbel; ele dizia para os humanos irem, no crepúsculo, "até a ravina na avenida, no alto, perto dor riacho". Logo após o por do sol, no dia seguinte, Freer foi até o local indicado, com dois acompanhantes homens. "Estava bem escuro", escreveu ela, "mas a neve estava de um branco tão brilhante que dava para enxergar o caminho (...). Avistei uma pequena figura de negro, uma mulher, subindo devagar pela ravina. Ela parou e olhou para mim. Estava vestida como uma freira." Uma das irmãs do major Robet Steuart, Isabela, havia sido freira até morrer, em 1880. 

         Posteriormente, disse Freer, ela viu o fantasma da freira diversas vezes; em algumas ocasiões ela estava conversando com uma mulher mais idosa, que dava a impressão de estar ralhando com ela.  Uma vez, relatou Freer, a freira parecia estar "mergulhada em um choro que eu sentia arrebatado e sem reservas". O interessante, contudo, é que nenhum dos dois homens que acompanharam Freer em sua primeira visita ao riacho foi capaz de ver a freira espectral. E embora diversos hóspedes tenham depois alegado ver vários espectros, inclusive o da freira, o testemunho deles não convenceu nem mesmo Freer. 

         De qualquer forma, em Ballechin House havia fenômenos suficientes para satisfazer o mais voraz caçador de fantasmas. Nos 69 dias em que Freer e sua companhia ocuparam a casa, sons extraordinários foram relatados em 92 ocasiões distintas. Entre os ruídos havia gemidos, grunhidos, batidas, clangores, baques e sons explosivos, juntamente com os barulhos do manco, do padre lendo, de animais em movimento e de passos arrastados de alguém que se presumia ser um homem idoso. Quatro pessoas, inclusive Freer e uma criada, disseram ter sido tocadas por presenças invisíveis. A sensação mais comum era a de ter a cama levantada ou balançada, ou de alguma coisa puxando a roupa da cama. Tanto Freer como Constance  Moore afirmam ter sido empurradas por um cão grande e invisível, e uma hóspede afirmou ter chegado a lutar com uma presença fantasmagórica invisível. 

         De todos os fenômenos, porém, os mais excitantes para um pesquisador da paranormalidade são os visuais, e Bellechin  House abrigava um caleidoscópio de fantasmas. Além da freira e sua companheira, Freer viu uma mulher segurando um crucifixo. Uma criada testemunhou a aparição noturna d metade superior de uma velha. Relatou-se também a aparição de uma pessoa que ainda estava viva, mas bem longe  dali - o padre Hayden, que cinco anos antes ficara tão alarmado com os barulhos noturnos. Finalmente, pouco antes do final da investigação, Freer foi acordada por ganidos aterrorizados de seu cão, um pomeraner chamado Spooks. Sentando-se na cama, viu "duas patas negras {que não era do Spook} apoiadas sobre a mesa ao lado da cama. Isso me deu uma sensação nauseante".

         Contando tudo, parecia  que Bellechin House e os terrenos em volta estavam assombrados, visível ou invisivelmente, por pelo menos nove espíritos; a freira Ishbel (ou Isabella) e sua companheira mais velha (talvez Margaret, outra irmã do velho major Robert Steutart); o homem que arrastava os pés, a velha com meio corpo, a mulher com o crucifixo, um padre morto e outro vivo, e um cão negro. 

        Ada Freer e seus hóspedes deixaram Ballechin House em maio de 1897. Depois disso, tanto quanto se sabe, o lugar ficou tranquilo até ser finalmente demolido em 1963.  Pelo jeito, os fantasmas haviam ido embora. 

         Mas seráque eles de fato existiram? Embora já se soubesse, na época da investigação de Freer,que os sons associados aos espíritos poderiam ser explicados em termos de causas naturais como cursos d'água subterrâneos ou tremores de terra, a pesquisa de Lambert recolocou essa possibilidade no caso de Ballechin House. O velho edifício, observou ele, estava perto de lugares onde dois riachos entram no subsolo, e um dos meses mais chuvosos da história da Inglaterra ocorreu durante a investigação. Além disso, as terras dos Steuart situavam-se nas vizinhanças da grande falha geológica que corre para o sudoeste através da Escócia, a partir de Stonehavem, região na qual foram registrados 465 abalos em um período de 38 anos. Mas este estudo de Lambert não é conclusivo e é contestados por muito estudiosos. 

         As causas naturais o podem ser responsabilizadas pelos fenômenos sonoros em Ballechin House, as manifestações táteis e visuais representavam um problema mais complexo. Ada Freer tinha uma ampla reputação de ser altamente sensível às experiências paranormais, reais ou imaginárias; seus sentidos já estavam excitados mesmo antes de ela pôr os pés em Ballechin House, e não há razões para se supor que ela tenha ficado mais calma depois de entrar na casa. Com efeito, até o colega de Freer na investigação, Lemesurier  Taylor, desprezou a freira fantasmagórica dela, por ser singularmente carente de "valor de evidência."

         Os caçadores de fantasmas amadores que vieram com Freer não só chegaram com expectativas de encontrar provas da existência dos espectros como ainda pareciam ansiosos por isso. Uma das hóspedes, por exemplo, contou ter ficado "acordada até tarde perto do fogo esperando, mas, como parecia que nada ia acontecer, fui para a cama, e logo adormeci". Pouco tempo depois, porém, foi acordada pelo que achou ser uma sacudidela na cama. Contudo,ela evitou "acender a luz, para ver como se desenvolvia aquela estranha experiência. Para meu desapontamento, não aconteceu nada" Em resumo, como disse um visitante, pelo menos alguns dos ocupantes de Ballechin House estavam sedentos de prodígios". É com certeza possível que tenham visto - ou acreditado ver - aquilo que queriam ver.

          Se a susceptibilidade humana à sugestão ajudou a criar os fantasmas em Bllechin House, isso levanta a questão de seu papel em outros relatos de fenômenos fantasmagóricos - relatos esses que não são de modo algum incomuns. Um levantamento feito em 1984 pelo Centro Nacional de Pesquisa de Opinião da Universidade de Chicago mostrou que 42 por cento de todos os americanos disseram ter  tido algum tipo de contato com alguém que havia morrido; uma pesquisa feita  em 1987 pelo Epcot Center concluiu que 13 por cento alegavam ter visto um fantasma. 

        Em 1964, uma oportunidade de explorar o potencial da sugestão foi proporcionada por um programa de meia hora na televisão inglesa  chamado "O desconhecido". Para fazer o file, os produtores pediram a A. D. Cornell, membro da SPR, para demonstrar a maneira pela qual um pesquisador da paranormalidade  competente procede em suas pesquisas. A locação do filme era em Morley Hall, uma mansão do século XVI em Norfolk. Embora o lugar não tivesse a reputação de  ser assombrado, seu interior escuro e lúgubre parecia um abrigo provável de coisas do outro mundo. 

       Durante uma noite inteira, Cornell seguiu seu procedimento padrão, entrevistando o dono da casa, inspecionando o local, instalando seus aparelhos de detecção e - como sempre - esperando no escuro que aparecesse um espírito. Na manhã seguinte foi entrevistado,do lado de fora da casa, pelo apresentador do programa. Por acaso ele havia encontrado alguma coisa anormal? Não, respondeu Cornel. E ele achava que Morley Hall estava assombrada? Não, com certeza não.

        Depois que o programa foi  ao ar, contudo, cinco espectadores ligaram para dizer que haviam visto  a figura fantasmagórica  de um monge parada ao lado de Cornel durante a entrevista. Espantados, membros da equipe do programa examinaram o filme com atenção e nada notaram fora do comum. A título de e experiência, a entrevista foi veiculada mais duas vezes . Sem dar mais detalhes, um locutor disse que algumas pessoas  haviam "relatado ter visto um fantasma no filme". 

        Agora, estimulados pela sugestão de que um fantasma poderia estar presente, 27 espectadores responderam. Quinze disseram ter visto o monge ou padre. Dez outros repetiram mais ou menos essa descrição; um descreveu uma senhora  com uma mantinha e outro um crânio encapuzado. Sete, porém, foram céticos o bastante para atribuir a forma espectral no filme a um truque de iluminação ou alguma ilusão de ótica -e tinham razão. Procurando com mais atenção nos ampliados do filme, os produtores do programa finalmente encontraram uma imagem, vagamente parecida com a de um monge,  causada pela descoloração no batente de pedra de uma janela com caixilhos diante da qual Cornell fora entrevistado.

         Seja lá como for, a maioria dos telespectadores que responderam estava convencida de ter realmente visto alguma coisa de sobrenatural. Considerando o efeito ruidoso que essas pessoas impressionáveis podem ter sobre a pesquisa, Cornell declarou: "Somos levados a sonhar (mas não com muita esperança) com algum tipo de invento capaz de 'peneirar' e de permitir-nos excluir as testemunhas de uma aparição que sejam passíveis de sofrer ilusões assim tão extremas." 

        Cornell, porém, acreditava também que a ideia da  sugestão como explicação para os fantasmas podia ser levada longe demais. A maioria das pessoas, argumentou, não é assim tão  influenciável. Para provar sua tese, ele aplicou uma série de testes. No primeiro, que começou às 22,30 horas de 26 de maio de1960, ele próprio se envolveu em quatro metros de tecido branco. Durante sete minutos, enquanto seus assistentes se ocultavam em moitas para tranquilizar quaisquer passantes que pudessem se assustar com a visão de um fantasma, Cornell ficou encostado em uma árvore do pátio da igreja de Saint Peter, em  Cambridge, vizinho a um cemitério e a apenas três metros da rua principal daquela cidade universitária. Nos cinco minutos seguintes ele ficou vagando por ali, às vezes na sombra, às vezes sob as brilhantes luzes da rua. Depois, ficou rodando em torno da árvore por mais três minutos, antes de encerrar o experimento com uma caminhada de cinco minutos, durante a qual ele completou a atuação com alguns gemidos e sons que considerou fantasmagóricos. 

        Durante a apresentação de vinte minutos, o "fantasma" de Cornell foi perfeitamente visível para noventa veículos que por ali passaram, quarenta ciclistas e doze pedestres - mas só dois concederam à imitação de aparição uma atenção mais que passageira. Uma testemunha - um rapaz - parou, olhou, perguntou ao espírito o que ele achava que estava fazendo e, não recebendo resposta, continuou caminhando  ao lado dele. A essa altura, um assistente de Cornel saiu de seu esconderijo, explicou-lhe a natureza do experimento e perguntou-lhe o que havia visto. Resposta da testemunha: "Um estudante de arte andando por aí embrulhado em um lençol". 

         Poucos minutos depois, um estudante desceu de sua bicicleta e ficou olhando para o pesquisador envolto em lençóis. Quando lhe perguntaram o que pensava estar vendo ele respondeu: " Um homem vestido de mulher, que com certeza deve ser louco".

        A despeito de seu interesse pelos possíveis efeitos da sugestão, os pesquisadores da para normalidade tomam cuidado para distinguir entre  a susceptibilidade  à sugestão e a sensibilidade. A sensibilidade é um talento possuído pelos médiuns genuínos - pessoas que parecem ter acesso especial a mundos invisíveis para outros seres humanos. Aparentemente, uma pessoa dessas foi a vidente de Prevorst, nascida nessa cidade da Suábia. O nome verdadeiro dela era Friederike Hauffe, e seu caso foi registrado pelo doutor Justinus A. C. Kerner, chamado em 1826 para tratá-la de uma doença misteriosa que deixava às portas da morte. Kerner encontrou uma mulher sem dentes, feia e acabada, que surpreendentemente vinha caindo em transes mediúnicos desde a infância, tinha visões e falava com os espíritos dos mortos. Quando Kerner a conheceu, Hauffe estava, ente outras coisas, intimamente associada a um poltergeist que arrastava correntes, atirava pedras, deslocava banquinhos e abajures e arrancava as botas da doente quando ela estava na cama. 

         Kerner no início duvidou, mas logo se convenceu de seus incríveis poderes. Segundo seu relato, ela traçava figuras geométricas meticulosas, inclusive círculos, em alta velocidade e no escuro. Ainda mais espantoso: deitada na cama, ela lia com facilidade os textos que Kerner colocava sobre a barriga dela. Além disso, afirmou Kerner, Hauffe usava às vezes seus talentos especiais para extirpar fantasmas. Após ouvir dizer que uma  casa das redondezas estava sendo assombrada pelo espírito de  um velho, o pesquisador trouxe um de seus moradores para a vidente. Ela caiu em transe profundo, durante o qual explicou que um burgomestre do passado tinha se transformado em um "espírito preso à terra" por ter, durante a vida, lesado dois órfãos. Verificando os registros, Kerner descobriu que em 1700 um certo Bellon fora de fato burgomestre, bem como diretor de um orfanato. Diante das "provas" de Hauffe, contou Kerner, o fantasma confessou sua culpa e desapareceu. 

         Para tratar da enfermidade que ameaçava a vida de Hauffe, Kerner escolheu o mesmerismo (hipnotismo, magnetismo), prática que estava então na moda e que consistia em passar  magnetos pelo corpo, em um esforço para estimular o fluxo de certos "fluídos vitais" teoricamente  essenciais à boa saúde. Em um primeiro momento, Hauffe pareceu reagir favoravelmente. Mais tarde, contudo, ela começou a ficar cada vez mais fraca. Kerner teorizou que as energias dela estavam sendo usadas pelos espíritos que a rodeavam. Em 1829, Friederike Hauffe morreu. Tinha apenas 28 anos. 

         Duas décadas depois, a idade de ouro do espiritismo, movimento cuja marca registrada  eram os médiuns que alegavam comunicar-se com os mortos, começou quando duas irmãs adolescentes do norte do estado de Nova York atraíram uma enorme atenção pública com sua aparente capacidade de falar com espíritos. As irmãs, KJate e Maggie Fox, acabaram sendo desmascaradas, mas a onda espírita durou até bem tarde no século XX, quando uma inundação de vigaristas e charlatães liquidou a reputação do movimento. Uma das médiuns que conservou sua reputação mais ou menos intacta foi Eileen Garrett, que ajudou a tirar a mediunidade do pântano de vigarice e embuste em que estava afundada e guiá-la para sua moderna associação com a parapsicologia. 

          Segundo sua autobiografia, Garrett, nascida  na Irlanda, experimentou episódios telepáticos e clarividentes desde a infância. Ela recebia toda uma pletora de guias espirituais, mas, ao contrário da maioria dos médiuns, nada de especial afirmava acerca das origens ou da autenticidade destes. Na verdade, ela teorizava que seus contatos com o outro mundo podiam muito bem não ser mais do que fragmentos submersos de sua própria personalidade. Garrett era até um pouco desconfiada de seus talentos paranormais, concluindo que eram "perigosos, a menos que fossem usados para ajudar as pessoas". Talvez em virtude de suas dúvidas, ela era incansável na busca de explicações para a experiência mediúnica. Pôs-se à disposição de diversos parapsicólogos para ser estudada e, em 1951, fundou a Sociedade de Parapsicologia, com sede em Nova York, para fornecer fundos para a pesquisa científica e erudita do desconhecido. "Se todos o estranho e mistificante  dom psíquico pudesse ser arrancado da escuridão das salas de sessão e posto nas mãos capazes e inquisitivas da ciência", disse ela, "todos se sentiriam muito melhor acerca do tema". Quando morreu em 1970, aos 77 anos de idade, Garrett foi quase unanimemente chorada e aclamada por seus colegas pesquisadores, mesmo pelos que duvidavam - como ela mesma, muitas vezes - que ela houvesse de fato tido qualquer contato com espíritos dos mortos. 

         Durante sua longa carreira, Garrett ficou às vezes desanimada com seu próprio trabalho. "Todas nossas investigações foram inconclusivas", disse ela uma vez. "Tomei parte de tantos experimentos e trabalhei com tantos pesquisadores que fico pensando se não estariam todos rodando em círculos sem ir a parte alguma. Ela não deixava de ter suas razões: Os históricos dos acontecimentos paranormais raramente tinham finais claros e ordenados - como atesta a experiência da própria Garrett em Rose Hall, na Jamaica que certa vez foi chamada de "a casa mais assombrada do hemisfério ocidental". 

        Em 1952,quando Garrett e um grupo de amigos foram passar as férias de inverno na Jamaica. Hall estava em ruínas, mas sua intensa reputação maligna não diminuia com o tempo. Debruçada no alto de uma sobre a vastidão azul das águas da  baia Montego, a mansão do século XVII for recebida em herança por um certo John Rose Palmer, em 1818. Foi para lá que ele levou sua noiva de 18 anos de idade, Annie, em 1820. Ela era meio inglesa e meio irlandesa e, segundo a lenda, de uma beleza de tirar o fôlego. O casamento dos dois, porém,estava longe de oferecer material para um idílico romance em uma ilha. John, aparentemente, era um alcoólatra valentão. E Annie era selvagem e promíscua, profundamente marcada por um caráter cruel e violento, que só piorava com o transcorrer do tempo. Dizia-se que ela praticava a magia negra do vudu, que lhe fora ensinada por uma sacerdotisa nativa do Haiti, onde ela passará a infância. 

         Segundo a tradição local, a jovem senhora de Rose Hall tomou um belo escravo como amante. Quando John a interrogou sobre essa ligação, ela envenenou-o. E, enquanto ele agonizava, ela provocava-o com sua infidelidade e ordenou ao amante que apressasse o passamento do marido sufocando-o com um travesseiro. Quando John estava inteiramente morto, os assassinos  esconderam o cadáver - pelo jeito com grande eficácia, posto que nunca foi encontrado. Logo após o assassinato, Annie livrou-se da única testemunha, fazendo com que fosse chicoteado até a morte por outros escravos. 

          Depois disso, Annie governou a propriedade com selvageria. Dois outros maridos vieram e se foram - mortos pela senhora de Rose Hall, segundo se dizia, No entanto, parece que os maridos eram uma válvula de escape insuficiente para a crueldade de Annie. Ela gostava de explorar suas vastas propriedades em cavalgadas noturnas. Durante essas excursões, vestida de homem e armada de um chicote, ela fustigava impiedosamente qualquer escravo que tivesse se atrevido a aventurar-se fora do alojamento após o escurecer. 

       Naturalmente, os escravos odiavam e temiam sua senhora.  Conta-se que a criada pessoal de Annie tentou envenená-la e a patroa conseguiu fazer com que fosse condenada e executada. A seguir, Annie exigiu que as autoridades lhe entregassem a cabeça cortada da jovem. Pingando sangue ainda, a cabeça foi levada em uma cesta a Rose Hall, onde, no alto de uma vara de bambu,ficou apodrecendo até restar apenas o crânio branco brilhando sob o ardente sol jamaicano. 

         Em 1833, Annie Palmer foi assassinada, aparentemente por seu mais recente amante, que podia muito bem estar tomando medidas preventivas contra sua própria execução. Qualquer que fosse a razão, os escravos encontraram o cadáver estrangulado e mutilado no quarto dela. Atearam fogo à cama e depois recusaram-se a cavar-lhe um túmulo. Finalmente, os vizinhos brancos ordenaram que seus próprios escravos enterrassem a mulher, não no cemitério de Saint James Parish, mas sob meio metro de sólida alvenaria, no jardim de Rose Hall. Parece que seus pares achavam que não havia espaço para Annie no terreno consagrado, e que o cimento talvez inibisse a sobrevivência de sua natureza perversa. Morta sua infernal senhora, Rose Hall foi se deteriorando aos poucos. Os habitantes da  região juravam que ela continuava a vagar pelas ruínas, que agora dividia com morcegos, corujas e aranhas.

       Para Eillen Garrett, a lenda Rose Hall era uma atração tentadora. E embora a médium houvesse visitado o local como turista, e não como vidente ou pesquisadora de paranormalidade, sua passagem por lá teve certas repercussões. "Mesmo antes de entrar na casa, fui tomada por impressões clarividentes",escreveu Garrett mais tarde. Ao lado dela,sua secretária tomava notas enquanto a médium descrevia as imagens que lhe invadiam a mente. Falou de uma mulher que não era "nem de perto tão atraente quanto dizem. Parece-me quase cinquenta anos .(...) Tem-se a impressão de cabelos negros e olhos azuis muito brilhantes e ardentes.(...) O primeiro marido dela era estranho, sádico, cruel. (...) Ela afirma ter pago caro demais por este lugar que era dela. (...) Volta para que ninguém possa morar aqui. Não tem arrependimento". 

        Com o apetite estimulado pelo aparente contato de Garrett com Annie, a médium e seus amigos voltaram a Rose Hall na noite seguinte. Ao sair de um túnel que passava por baixo das ruínas, Garrett começou a andar cada vez mais rápido e depois caiu no sono gemendo e pareceu entrar em outro transe. Falando com uma voz de mulher que em nada parecia com a dela, implorou: "Por favor, por favor, por favor." Procurando consolá-la,um membro do grupo disse: "Em nome de Deus, nada há a temer." A resposta não foi coerente. Em vez disso, Garrett - ou seria Annie Palmer? - rolou pelo chão, grunhindo , rindo e cantando e suplicou aos presentes que orassem por ela. 

            Garrett voltou mais duas vezes a Rose Hall. Certa vez, durante um episódio de aparente clarividência, ela viu Annie Palmer morrendo "de noite, devagar, dolorosamente. Depois vejo uma espécie de luz cinzenta. Talvez seja a luz da manhã. E vejo alguém que deve ter-se sentido culpado, levantando-a". Então, através de Garrett, o suposto espírito de Annie fez um voto terrível: "Que ninguém pense que este é meu fim. Meus gritos viverão, e os que procurarem herdar terão sobre si uma maldição." E isto foi tudo. Apesar da maldição, o fantasma de Annie nunca mais foi visto depois da visita de Garrett. Teria a médium "sossegado o fantasma? Havia mesmo um fantasma? Não existe qualquer prova de uma coisa  ou de outra, mas diz-se que Rose Hall ganhou a tranquilidade depois que os espíritos viraram uma lembrança. Deixando de ser amedrontadora, a velha casa de Annie Palmer foi plenamente restaurada, recuperando sua antiga beleza. 

        Eileen Garrett fi apenas uma de vários médiuns usados como verdadeiras cobaias de laboratório durante os anos em que Joseph Rhine, da Universidade Duke, dominou o campo das pesquisas de paranormalidade. Sob a égide dele, esses médiuns esforçaram-se para influenciar os resultados do jogo de dados, ou para identificar símbolos em cartões ocultos de suas visitas. Para o verdadeiro caçador de fantasmas, porém, tais esforços eram um exercício estéril. Nos anos sessenta, os pesquisadores estavam aplicando as técnicas aprendidas no laboratório e voltando para o trabalho de campo - tentando apanhar os fantasmas onde estes vivessem, por assim dizer, em vez de juntar os fatos com base apenas em experiências empíricas. Os pesquisadores estavam armados com um novo arsenal tecnológico, que incluía coisas como termômetros de precisão, para medir variações mínimas de temperatura, microfones de detectavam sons além do alcance do ouvido humano e até equipamentos para registrar mudanças imperceptíveis em movimentos e odores. Usavam também o que haviam aprendido a respeito de sensores não tecnológicos - animais, por exemplo. 

        Acredita-se há tempos que os animais são especialmente sensíveis às presenças paranormais. Em 1972 Robert Morris, da Fundação de Pesquisas de Durham, na Carolina do Norte, escreveu sobre um pesquisador não identificado que testou essa teoria em uma casa assombrada. 

          Tendo ouvido falar de uma casa no estado de Kentucky em que dois quartos eram supostamente assombrados, o pesquisador foi até lá com um cão, um gato, uma cascavel e um rato. Quando o cão foi levado para o quarto assombrado começou imediatamente a rosnar e saiu do quarto. Quando o gato foi levado para dentro do quarto,pulou para o ombro do dono e depois para o chão, começando a rosnar e eriçar-se, olhando para uma cadeira vazia. Quanto à cascavel, "adotou no mesmo instante uma postura de ataque em direção à mesma cadeira que fora de interesse do gato", contou Morris. Só o rato não teve reação alguma. Quando levados para outro quarto, que não tinha qualquer história de assombração, os animais comportaram-se normalmente. 

       Um dos pioneiros do uso de métodos eruditos nas pesquisas de campo foi Gertrude R. Schmeidler. En 1966, quando era professora de psicologia na universidade municipal de Nova York, Schmeidler começou a tratar de seu caso mais famoso, o da casa de uma amiga, que parecia estar assombrada. Tanto a mulher como seus dois filhos adolescentes relataram ter sentido a presença de um fantasma invisível, que identificaram com a imagem de um homem fraco e ansioso. 

           Schmeidler pediu a um arquiteto que fizesse uma planta detalhada da casa. A planta foi dividida em uma rede de trezentos setores e pediu-se aos moradores que marcassem um  "X" os setores nos quais haviam sentido mais intensamente a presença inquietante. Em seguida, nove sensitivos receberam a planta da casa - sem os "X" - e solicitou-se que andassem pela casa, marcando suas impressões de onde o fantasma poderia estar. Receberam também uma lista de adjetivos, alguns  coincidiam com a descrição do fantasma pela família, mas a maioria não. Depois de rodar pela casa, dois dos nove sensitivos indicaram os mesmos locais citados pela família. É interessante notar que vários também sentiram a presença no porão, que a família não havia mencionado. Quatro dos sensitivos marcaram os adjetivos fraco e ansioso para descrever o espírito - os mesmos que haviam sido usados pela família. Esses resultados, afirmou Schmeidler, mostravam "um alto grau de significado estatístico". Apesar disso, ela concluiu seu relatório com cautela: "A questão acerca do que estava causando a reação da família e dos sensitivos continua em aberto."

           Em 1973, uma das alunas de pós-graduação de Schmeidler, Michaleen Maher, usou uma técnica semelhante com quatro sensitivos para investigar um apartamento de Nova York,no qual uma amiga e sua mãe haviam visto o fantasma de "uma figura encurvada, com um manto nego". Segundo Maher, dois dos sensitivos relataram impressões estatisticamente significativas. Além disso, um dos quadros em um rolo de filme infravermelho usado na pesquisa mostrou uma inexplicável "parábola de neblina"no corredor supostamente frequentado pelo fantasma. E na despensa, onde um dos sensitivos achava que o fantasma aparecia, um contador Geiger começou a estalar desenfreadamente. 

            Em resumo, os resultados foram estimulantes o bastante para convencer Maher a continuar com seu estudo de fantasmas, ao mesmo tempo que trabalhava como editora de pesquisa no New York Magazine. No final dos anos oitenta, ela fez experimentos com um aparelho concebido por um colega, chamado informalmente de Detector de Demônios: trata-se de uma espécie de gerador de números aleatórios, programado para encontrar luzes e sons anormais em áreas nas quais tenham sido sugeridos fenômenos incomuns. Mather e seus associados tinham esperanças de que o detector de Demônios pudesse eventualmente ser usado por entidades desencarnadas como canal de comunicação com os vivos.

             A maioria dos pesquisadores acha que o futuro das pesquisas de paranormalidade está no uso de equipamentos de alta tecnologia, tais como esse. No entanto, ao esmo tempo que avaliam essa perspectiva, fica claro que seu interesse está antes de mais nada na coleta de informações sobre os fenômenos paranormais - e não na expulsão de fantasmas, tarefa arriscada que costuma ser relegada àqueles que, embora muito menos versados em eventos paranormais, estão profundamente preocupados com assuntos espirituais.

             A Igreja Católica Romana, a mais amplamente reconhecida autoridade em rituais de exorcismo, distingue entre os fantasmas - espíritos  dos mortos - e os demônios servidores de Satã. E embora a Igreja tenha rituais elaborados para exorcizar demônios tanto de indivíduos como de residências, dispensa aos fantasmas corriqueiros um tratamento sumário. O falecido Herbert Thurston, estudioso jesuíta de fenômenos paranormais, observou certa vez: "Parece que a Igreja Católica (...) nunca levou muito em conta as aparições espectrais - fantasmas, na verdade - que às vezes dizem perturbar a paz de alguma residência comum. "Com efeito, durante muito tempo acreditou-se que a Igreja não tinha ritual de exorcismo para a expulsão de fantasmas. Mas o padre Thurston descobriu um ritual que pelo menos parecia pertinente para esse propósito, contanto que o fantasma em questão tivesse intenções malévolas. Como contou Thurston, ele encontrou "por acaso um documento contido no Apêndice a uma edição do Rituale Romanum, publicado com plena autorização do Concílio da Inquisição, na imprensa real de Madri em 1631". A conjuração crucial rezava: "Entrai, ó Senhor, graciosamente no lar que vos pertence, construí para vôs um repouso duradouro nos corações de vossos fiéis servos e garanti que nesta casa nenhuma perversidade ou espírito maligno possa jamais dominar."

        Ao apresentar sua descoberta. Thurston expressou a esperança de que "esta fórmula de comunicação possa (...) possivelmente ser de alguma utilidade para outros que se encontrem em dificuldade". Aparentemente, tal esperança era infundada, pois não há registros de o ritual ter sido jamais empregado. 

           despeito do distanciamento doutrinário  da Igreja Católica, os clérigos continuam sendo convocados para livrar casas de fantasmas ou poltergeist. Os resultados variam. Em Ballechin House, por exemplo, o padre Hayden tentou desalojar o fantasma com água benta e orações, inutilmente. Os esforços clericais chegaram à convocação de um arcebispo para limpar a casa do espírito que a infestava, mas isso tampouco funcionou. 

           Por outro lado, alguns exorcismos eclesiásticos de fantasmas parecem ter tido finais mais felizes. Um dos casos mais antigos registrados nos arquivos oficiais ocorreu em 1323, quando o papa João XXII ordenou a John  Godoy, prior de Alais, na Provença, que estudasse um caso de assombração  Aparentemente, um homem chamado Guy de Torno morrera oito dias antes em sua casa de Alais e, após sua morte, os sobreviventes ouviram a voz dele diversas vezes. Rebocando mais de cem leigos e três irmãos beneditinos, Goby chegou à casa de Torno no dia de Natal. Embora contasse c muito mais mão-de-obra do que a disponível para os pesquisadores atuais de paranormalidade, as técnicas de Goby eram notavelmente semelhantes às que vem sendo usadas há longo tempo. Sua primeira providência foi procurar indícios de fraude de maquinação: além de colocar guardas no telhado e nas traves da casa, mandou que outros evacuassem as casas vizinhas e as revistaram de cabo a rabo.  

            Ao dar início a sua vigília noturna, o prior John e seus colegas monges recitaram o Ofício dos Mortos e caíram em um silêncio tenso, que foi interrompido por um barulho peculiar, como de alguém varrendo o chão. Perguntaram à presença se era Guy de Torno, ao que ela respondeu, segundo os registros da Igreja: "Sim, eu sou ele."

            Durante a conversação que se segui, a voz insistiu que era "um espírito bom", embora houvesse sido condenado a uma existência fantasmagórica por causa dos pecados conjugais cometidos por De Torno em vida. Então, em uma súbita ventania, o suposto espectro partiu. Os mexericos locais afirmaram que ele voltou depois na forma de uma pomba, mas, John Goby e seu papal senhor ficaram aparentemente convencidos de que o fantasma fora posto para descansar. 

           Infelizmente tais certezas são raras, resultando mais de experiência pessoal e fé do que de experimentação e prova. A despeito de todos os esforços dos caçadores de fantasmas, uma solução para o antiquíssimo mistério acerca de algum tipo de essência humana que sobreviva à morte para assombrar os vivos parece estar tão remota quanto sempre esteve.

 

FANTASMAS NO CINEMA E NO TEATRO

           Segundo consta nas histórias e lendas, os fantasmas abundam nos teatros do West End londrino. Sem dúvida é provável que os promot...